Mostrando postagens com marcador conto. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador conto. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 18 de agosto de 2015

ONDE VAI?

Em dois mosteiros vizinhos viviam dois jovens monges muito amigos. De manhã, sempre os monges se encontravam, cada um cuidando de seus afazeres.

Certo dia, um dos monges estava varrendo o pátio de seu templo e, vendo aproximar-se o amigo, perguntou:
"Olá! Onde vais?"

O amigo respondeu, feliz:
"Vou aonde meus pés me levarem..."

O monge ficou intrigado com a resposta e comentou com seu mestre. Este lhe disse:
"Da próxima vez, diga-lhe: 'E se não tivesses pés?'"

Quando o jovem noviço viu o amigo de novo na manhã seguinte, fez a mesma pergunta já antecipando o momento em que pegaria o amigo de jeito, desta vez:
"Onde vais?"

Mas o outro disse:
"Aonde o vento me levar!"

O monge ficou frustado! Voltou ao mestre e contou a nova resposta, e este, sorrindo, disse:
"Da próxima vez, diga-lhe: 'E se o vento parasse de soprar?'"

O jovem monge ficou encantado com a idéia:
"Sim, sim! Essa é boa! Agora ele não me escapa!"

No dia seguinte, ao amanhecer, ele viu seu amigo aproximando-se de novo. Perguntou-lhe:
"Olá! Onde vais?"

O amigo parou, sorriu-lhe, e falou suavemente:
"Simplesmente vou ao mercado, meu amigo...", e seguiu seu caminho.

sexta-feira, 31 de julho de 2015

NADA É DESPERDIÇADO

Certo dia, o mestre Yi-shan tomava banho, mas a água estava muito quente. Ele pediu então ao seu discípulo que trouxesse água fria. O discípulo encheu um balde e foi despejando-o devagar na tina de banho, e em determinado momento o mestre disse:

"Está bom, obrigado. A quentura foi diminuída e agora está muito agradável."

Como sobrou um pouco de água no balde, o noviço simplesmente virou-se e jogou a água no chão, perto da tina. O mestre ao ver isso gritou para o outro monge:

"Por que fizestes tal estupidez?! Tudo tem utilidade. Por que desperdiçou a água? Poderia tê-la despejado sob uma planta ou árvore, onde poderia ser útil! Ou então por que não a jogou num canteiro de flores? Nunca se esqueça: não devemos desperdiçar nem mesmo uma gota de água, nem uma folha de grama! Tudo neste mundo é valioso."

Ouvindo isso, o monge noviço compreendeu o significado da vida. Desde então ele ficou conhecido como "Gota D'água".

sexta-feira, 10 de julho de 2015

NÃO CONHEÇO TÍTULOS

Um dia, o grande general Kitagaki foi visitar seu velho amigo, o superior do templo Tofuku. Ao chegar, disse a um noviço algo de forma desdenhosa, como comumente se dirigia às pessoas que considerava seus subordinados no exército:

"Diga ao Mestre que o grande general Kitagaki está aqui."

O noviço foi ao seu mestre e disse:

"Mestre, o Grande General Kitagaki está aqui."

O mestre respondeu:

"Não conheço Grandes Generais."

O noviço voltou à presença do militar com o recado enquanto o velho sábio observava do pórtico:

"Desculpe, o mestre não pode vê-lo. Ele não conhece nenhum Grande General."

O General inicialmente ficou surpreso, depois indignado, e finalmente compreendeu. Humildemente disse ao noviço:

"Desculpe minha arrogância. Por favor, diga-lhe que Kitagaki deseja vê-lo."

O monge assim o fez. Logo, o mestre aproximou-se com um sorriso e cumprimentou:

"Ah, Kitagaki! Há quanto tempo! Por favor, entre."

segunda-feira, 16 de março de 2015

OLHANDO DA MANEIRA CORRETA

Havia em uma aldeia uma velha chamada "mulher chorosa" pois todos os dias, chovendo ou fazendo sol, ela sempre estava chorando. 

Ela vendia bolinhos na rua, e um monge sempre passava por ela quando ia ao grande templo para os ritos. Um dia, curioso, ele lhe perguntou:
"Sempre que passo, seja em belos dias ensolarados, seja em suaves dias chuvosos, vejo a senhora chorando. Por que isso acontece?"

"Tenho dois filhos," ela respondeu, "Um faz delicadas sandálias, o outro guarda-chuvas. Quando faz sol, penso que ninguém comprará os guarda-chuvas de meu filho, e ele e sua família vão passar necessidades. Quando chove, penso no meu filho que faz sandálias, e que ninguém vai comprá-las. Então ele também vai ter dificuldade para sustentar sua família."

O monge sorriu e disse:
"Mas... a senhora deveria ver as coisas de forma correta. Veja: quando o sol brilha, seu filho que faz sandálias venderá muito, e isso é muito bom! Quando chove, seu filho que faz guarda-chuvas venderá muito, e isso é também muito bom!"

A velha olhou-o com alegria e exclamou:
"Tem razão!"

Desde então a velha passa todos os dias, chovendo ou fazendo sol, sorrindo feliz.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

O APERFEIÇOAMENTO PESSOAL

Um praticante certa vez perguntou a um mestre Zen, que ele considerava muito sábio:
"Quais são os tipos de pessoas que necessitam de aperfeiçoamento pessoal?"

"Pessoas como eu." Comentou o mestre. 

O praticante ficou algo espantado:
"Um mestre como o senhor precisa de aperfeiçoamento?"

"O aperfeiçoamento," respondeu o sábio, "nada mais é do que vestir-se, ou alimentar-se..."

"Mas," replicou o praticante, "fazemos isso sempre! Imaginava que o aperfeiçoamento significasse algo mais profundo para um mestre."

"O que achas que faço todos os dias?" retrucou o mestre. "A cada dia, buscando o aperfeiçoamento, faço com cuidado e honestidade os atos comuns do cotidiano. Nada é mais profundo do que isso."

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

ESSÊNCIA

Na China, havia um monge Zen, chamado mestre Dori, que, por fazer zazen empoleirado num pinheiro pára-sol, fora alcunhado de mestre Ninho de Passarinho. Um poeta muito célebre, Sakuraten, foi visitá-lo e, ao vê-lo fazer zazen, disse-lhe:
"Tomai cuidado, que isso é perigoso; podereis, um dia, cair do pinheiro!"

"De maneira nenhuma," respondeu mestre Dori. "Vós é que correis perigo de um dia cair."

Sakuraten refletiu. "Com efeito, vivo dominado por paixão, é como brincar com o raio". E perguntou ao mestre Zen:
"Qual é a verdadeira essência do budismo?"

Mestre Dori respondeu:
"Não façais nada violento, praticai somente o aquilo que é justo e equilibrado."

"Mas até uma criança de três anos sabe disso!" exclamou o poeta.

"Sim, mas é uma coisa difícil de ser praticada até mesmo por um velho de oitenta anos..." completou o mestre.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

UMA VIDA INÚTIL?

Um bondoso fazendeiro tornou-se velho demais para poder trabalhar nos campos. Assim ele passava seus dias apenas sentado na varanda, feliz em observar a natureza. Seu filho era uma pessoa insensível e ambiciosa que não gostava trabalhar. Mas, ainda trabalhando na fazenda, podia observar seu pai de vez em quando ao longe.

"Ele é inútil," o filho falou para si mesmo, agastado, "ele não faz nada!"

Um dia o filho ficou tão frustado por ver seu pai numa vida que ele considerava absurda, que construiu um caixão de madeira, arrastou-o até a varanda e disse insensivelmente para o seu pai entrar nele. Sem dizer uma palavra, o pai deitou-se no caixão. Após fechar a tampa, o filho arrastou o caixão até as fronteiras da fazenda onde existia um grande abismo. Quando ele se aproximou da beira, ouviu uma suave batida na tampa, de dentro do caixão. Ele abriu-o. Ainda deitado lá pacificamente, o pai olhou para seu filho.

"Sei que você vai lançar-me no abismo, mas antes de fazer isso posso lhe sugerir uma coisa?"

"O que é?" disse o filho, confuso e algo constrangido por ver seu pai tão calmo.

"Lance-me ao abismo, se quiser," disse o pai, "mas salve este bom caixão de madeira. Seus filhos podem querer usá-lo um dia com você..."

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

O MUDO E O PAPAGAIO

Um jovem monge foi até o mestre Ji-shou e perguntou:
"Como chamamos uma pessoa que entende uma verdade mas não pode explicá-la em palavras?"

Disse o mestre:
"Uma pessoa muda comendo mel".

"E como chamamos uma pessoa que não entende a verdade, mas fala muito sobre ela?"

"Um papagaio imitando as palavras de uma outra pessoa".

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

ANSIANDO POR DEUS

Um sábio estava meditando à margem de um rio quando um homem jovem, um tanto entusiasmado, o interrompeu.

"Mestre, eu desejo ser seu discípulo!", disse o jovem.

"Por quê?" replicou o sábio.

O jovem era uma pessoa que sempre ouviu falar dos caminhos espirituais, e tinha uma idéia fantasiosa e romântica deles. Em sua imaturidade, ele achava que ser "espiritual" era algo como participar de um movimento, de uma crença, de uma moda, sem grandes conseqüências. Ele então pensou numa resposta bem "profunda" e disse:
"Porque eu quero encontrar DEUS!"

O sábio pulou de onde estava, agarrou o rapaz pelo cangote, arrastou-o até o rio e mergulhou sua cabeça sob a água. Manteve-o lá por quase um minuto, sem permitir que respirasse, enquanto o terrificado rapaz chutava e lutava para se libertar. Finalmente o mestre o puxou da água e o arrastou de volta à margem.

Largou-o no chão, enquanto o homem cuspia água e engasgava, lutando para retomar a respiração e entender o que acontecera. Quando ele eventualmente se acalmou, o sábio lhe perguntou:
"Diga-me, quando estava sob a água, sabendo que morreria, o que você queria mais do que tudo?

"Ar!", respondeu o jovem, amuado.

"Muito bem", disse o mestre. "Vá para sua casa, e quando você souber ansiar por um Deus tanto quanto você acabou de ansiar por ar, pode voltar a me procurar."

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

NATUREZA

Dois monges estavam lavando suas tigelas no rio quando perceberam um escorpião que estava se afogando. Um dos monges imediatamente pegou-o e o colocou na margem. No processo ele foi picado. Ele voltou para terminar de lavar sua tigela e novamente o escorpião caiu no rio. O monge salvou o escorpião e novamente foi picado. O outro monge então perguntou:

"Amigo, por que você continua a salvar o escorpião quando você sabe que sua natureza é agir com agressividade, picando-o?"

"Porque," replicou o monge, "agir com compaixão é a minha natureza."

(Outra versão deste conto descreve uma raposa que concorda em carregar um escorpião em suas costas através de um rio, sob a condição que o escorpião não o pique. Mas o escorpião ainda assim pica a raposa quando ambos estavam no meio da correnteza. Enquanto a raposa afundava, levando o escorpião consigo, ela lamentosamente perguntou ao escorpião por que tinha condenado a ambos à morte ao picá-la. "Porque é minha natureza."

A mesma estória é encontrada na tradição indígena americana. No Brasil a raposa é substituída por um sapo.)

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

O PARAÍSO

Duas pessoas estavam perdidas no deserto. Elas estavam morrendo de inanição e sede. Finalmente, eles avistaram um alto muro. Do outro lado eles podiam ouvir o som de quedas d'água e pássaros cantando.

Acima eles podiam ver os galhos de uma árvore frutífera atravessando e pendendo sobre o muro. Seus frutos pareciam deliciosos.

Um dos homens subiu o muro e desapareceu no outro lado.

O outro, em vez disso, saciou sua fome com as frutas que sobressaíam da árvore ali mesmo, e retornou ao deserto para ajudar outros perdidos a encontrar o caminho para o oásis.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

O AGORA

Um guerreiro japonês foi capturado pelos seus inimigos e jogado na prisão. Naquela noite ele sentiu-se incapaz de dormir pois sabia que no dia seguinte ele iria ser interrogado, torturado e executado. Então as palavras de seu mestre Zen surgiram em sua mente:

"O "amanhã" não é real. É uma ilusão. A única realidade é "AGORA. O verdadeiro sofrimento é viver ignorando este Dharma".

Em meio ao seu terror subitamente compreendeu o sentido destas palavras, ficou em paz e dormiu tranqüilamente.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

CONHECENDO OS PEIXES

Certa vez Chuang Tzu e um amigo caminhavam à margem de um rio.

"Veja os peixes nadando na corrente," disse Chuang Tzu, "Eles estão realmente felizes..."

"Você não é um peixe," replicou arrogantemente seu amigo, "Então você não pode saber se eles estão felizes."

"Você não é Chuang Tzu," disse Chuang Tzu, "Então como você sabe que eu não sei que os peixes estão felizes?"

terça-feira, 4 de novembro de 2014

CAÇANDO DOIS COELHOS

Um estudante de artes marciais aproximou-se de seu mestre com uma questão:

"Gostaria de aumentar meu conhecimento das artes marciais. Em adição ao que aprendi com o senhor, eu gostaria de estudar com outro professor para poder aprender outro estilo. O que pensa de minha idéia?"

"O caçador que espreita dois coelhos ao mesmo tempo," respondeu o mestre, "corre o risco de não pegar nenhum."

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

EREMITA E A AMBIÇÃO

Na China antiga, um eremita meio mágico vivia numa montanha profunda. Um belo dia, um velho amigo foi visitá-lo. Senrin, muito feliz por recebê-lo, ofereceu-lhe um jantar e um abrigo para a noite.

Na manhã seguinte, antes da partida do amigo, quis ofertar-lhe um presente. Tomou de uma pedra e, com o dedo, converteu-a num bloco de ouro puro.

O amigo não ficou satisfeito. Senrin apontou o dedo para uma rocha enorme, que também se transformou em ouro.

O amigo, porém, continuava sem sorrir.

- Que queres, então? - indagou Senrin.

Respondeu-lhe o amigo:

- Corta esse dedo, eu o quero.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

NAS MÃOS DO DESTINO

Um grande guerreiro japonês chamado Nobunaga decidiu atacar o inimigo embora ele tivesse apenas um décimo do número de homens que seu oponente. Ele sabia que poderia ganhar mesmo assim, mas seus soldados tinham dúvidas. No caminho para a batalha ele parou em um templo Shintó e disse aos seus homens:

"Após eu visitar o relicário eu jogarei uma moeda. Se a Cara sair, iremos vencer; se sair a Coroa, iremos com certeza perder. O Destino nos tem em suas mãos."

Nobunaga entrou no templo e ofereceu uma prece silenciosa. Então saiu e jogou a moeda. A Cara apareceu. Seus soldados ficaram tão entusiasmados a lutar que eles ganharam a batalha facilmente.

Após a batalha, seu segundo em comando disse-lhe orgulhoso:

"Ninguém pode mudar a mão do Destino!"

"Realmente não..." disse Nobunaga mostrando-lhe reservadamente sua moeda, que tinha sido duplicada, possuindo a Cara impressa nos dois lados.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

UMA XÍCARA DE CHÁ

Nan-In, um mestre japonês durante a era Meiji (1868-1912), recebeu um professor de universidade que veio lhe inquirir sobre Zen. Este iniciou um longo discurso intelectual sobre suas dúvidas.

Nan-In, enquanto isso, serviu o chá. Ele encheu completamente a xícara de seu visitante, e continuou a enchê-la, derramando chá pela borda.

O professor, vendo o excesso se derramando, não pode mais se conter e disse:
"Está muito cheio. Não cabe mais chá!"

"Como esta xícara," Nan-in disse, "você está cheio de suas próprias opiniões e especulações. Como posso eu lhe demonstrar o Zen sem você primeiro esvaziar sua xícara?"

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

RELIGIÃO

Há uma estória indiana de um homem que era um ateu e agnóstico, um raríssimo tipo de postura na Índia. Ele era uma pessoa que desejava livrar-se de todas as formas de ritos religiosos, deixando apenas a essência da direta experiência da Verdade. Ele atraiu discípulos que costumavam se reunir a seu redor toda semana, quando ele falava a todos sobre seus princípios. Após algum tempo eles começaram a se juntar antes do mestre aparecer, porque eles gostavam de estar em grupo e cantar juntos.

Eventualmente foi construída uma casa para as reuniões, com uma sala especial para o mestre agnóstico. Após sua morte, tornou-se uma prática entre seus seguidores fazer uma reverência respeitosa para a agora sala vazia, antes de se entrar no salão. Em uma mesa especial a imagem do mestre era mostrada em uma moldura de ouro, e as pessoas deixavam flores e incenso lá, em respeito ao mestre.

Em poucos anos uma religião tinha crescido em torno daquele homem, que em vida não praticava nada disso, e que, ao contrário, sempre disse aos seus seguidores que ficar preso a estas práticas levava freqüentemente a pessoa a se iludir no caminho da Verdade.

"Tenhais confiança não no mestre, mas no ensinamento.
Tenhais confiança não no ensinamento, mas no espírito das palavras.
Tenhais confiança não na teoria, mas na experiência.
Não creiais em algo simplesmente porque vós ouvistes.
Não creiais nas tradições simplesmente porque elas têm sido mantidas de geração para geração.
Não creiais em algo simplesmente porque foi falado e comentado por muitos.
Não creiais em algo simplesmente porque está escrito em livros sagrados; não creiais no que imaginais, pensando que um Deus vos inspirou.
Não creiais em algo meramente baseado na autoridade de seus mestres e anciãos.
Mas após contemplação e reflexão, quando vós percebeis que algo é conforme ao que é razoável e leva ao que é bom e benéfico tanto para vós quanto para os outros, então o aceiteis e façais disto a base de sua vida."

terça-feira, 15 de abril de 2014

O QUEBRADOR DE PEDRAS

Era uma vez um simples quebrador de pedras que estava insatisfeito consigo mesmo e com sua posição na vida. 

Um dia ele passou em frente a uma rica casa de um comerciante. Através do portal aberto, ele viu muitos objetos valiosos e luxuosos e importantes figuras que freqüentavam a mansão. 

"Quão poderoso é este mercador!" pensou o quebrador de pedras. Ele ficou muito invejoso disso e desejou que ele pudesse ser como o comerciante. 

Para sua grande surpresa ele repentinamente tornou-se o comerciante, usufruindo mais luxos e poder do que ele jamais tinha imaginado, embora fosse invejado e detestado por todos aqueles menos poderosos e ricos do que ele. Um dia um alto oficial do governo passou à sua frente na rua, carregado em uma liteira de seda, acompanhado por submissos atendentes e escoltado por soldados, que batiam gongos para afastar a plebe. Todos, não importa quão ricos, tinham que se curvar à sua passagem. 

"Quão poderoso é este oficial!" ele pensou. "Gostaria de poder ser um alto oficial!" 

Então ele tornou-se o alto oficial, carregado em sua liteira de seda para qualquer lugar que fosse, temido e odiado pelas pessoas à sua volta. Era um dia de verão quente, e o oficial sentiu-se muito desconfortável na suada liteira de seda. Ele olhou para o Sol. Este fulgia orgulhoso no céu, indiferente pela sua reles presença abaixo. 

"Quão poderoso é o Sol!" ele pensou. "Gostaria de ser o Sol!" 

Então ele tornou-se o Sol. Brilhando ferozmente, lançando seus raios para a terra sobre tudo e todos, crestando os campos, amaldiçoado pelos fazendeiros e trabalhadores. Mas um dia uma gigantesca nuvem negra ficou entre ele e a terra, e seu calor não mais pôde alcançar o chão e tudo sobre ele. 

"Quão poderosa é a nuvem de tempestade!" ele pensou "Gostaria de ser uma nuvem!" 

Então ele tornou-se a nuvem, inundando com chuva campos e vilas, causando temor a todos. 

Mas repentinamente ele percebeu que estava sendo empurrado para longe com uma força descomunal, e soube que era o vento que fazia isso. 

"Quão poderoso é o Vento!" ele pensou. "Gostaria de ser o vento!" 

Então ele tornou-se o vento de furacão, soprando as telhas dos telhados das casas, desenraizando árvores, temido e odiado por todas as criaturas na terra. Mas em determinado momento ele encontrou algo que ele não foi capaz de mover nem um milímetro, não importasse o quanto ele soprasse em sua volta, lançando-lhe rajadas de ar. Ele viu que o objeto era uma grande e alta rocha. 

"Quão poderosa é a rocha!" ele pensou. "Gostaria de ser uma rocha!" 

Então ele tornou-se a rocha. Mais poderoso do que qualquer outra coisa na terra, eterno, inamovível. Mas enquanto ele estava lá, orgulhoso pela sua força, ele ouviu o som de um martelo batendo em um cinzel sobre uma dura superfície, e sentiu a si mesmo sendo despedaçado. 

"O que poderia ser mais poderoso do que uma rocha?!?" pensou surpreso. 

Ele olhou para baixo de si e viu a figura de um quebrador de pedras.

O POTE RACHADO

Um carregador de água na Índia levava dois potes grandes, ambos pendurados em cada ponta de uma vara a qual ele carregava atravessada em seu pescoço. Um dos potes tinha uma rachadura, enquanto o outro era perfeito e sempre chegava cheio de água no fim da longa jornada entre o poço e a casa do chefe; o pote rachado chegava apenas pela metade. 

Foi assim por dois anos, diariamente, o carregador entregando um pote e meio de água na casa de seu chefe. 

Claro, o pote perfeito estava orgulhoso de suas realizações. Porém, o pote rachado estava envergonhado de sua imperfeição, e sentindo-se miserável por ser capaz de realizar apenas a metade do que ele havia sido designado a fazer. 

Após perceber que por dois anos havia sido uma falha amarga, o pote falou para o homem um dia à beira do poço. 

"Estou envergonhado, e quero pedir-lhe desculpas." 
- "Por quê?" Perguntou o homem. 
- "De que você está envergonhado?" 
- "Nesses dois anos eu fui capaz de entregar apenas a metade da minha carga, porque essa rachadura no meu lado faz com que a água vaze por todo o caminho da casa de seu senhor. Por causa do meu defeito, você tem que fazer todo esse trabalho, e não ganha o salário completo dos seus esforços," disse o pote. 

O homem ficou triste pela situação do velho pote, e com compaixão falou: 

- "Quando retornarmos para a casa de meu senhor, quero que percebas as flores ao longo do caminho." 

De fato, à medida que eles subiam a montanha, o velho pote rachado notou as flores selvagens ao lado do caminho, e isto lhe deu certo ânimo. 

Mas ao fim da estrada, o pote ainda se sentia mal porque tinha vazado a metade, e de novo pediu desculpas ao homem por sua falha. 

Disse o homem ao pote: 

- "Você notou que pelo caminho só havia flores no seu lado. Eu ao conhecer o seu defeito, tirei vantagem dele. E lancei sementes de flores no seu lado do caminho, e cada dia, enquanto voltávamos do poço, você as regava. 
Por dois anos eu pude colher estas lindas flores para ornamentar a mesa de meu senhor. 
Sem você ser do jeito que você é, ele não poderia ter esta beleza para dar graça à sua casa."