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quinta-feira, 6 de outubro de 2016

O CENTENÁRIO DO INVENTOR QUE AJUDOU A SALVAR MILHÕES DE VIDAS

Frank Pantridge ajudou a salvar muitas vidas

O professor Frank Pantridge é lembrado como o cardiologista que inventou o desfibrilador portátil, equipamento que ajudou a salvar milhões de vidas nos últimos 50 anos.

E, segundo familiares, era também conhecido por não poupar críticas às autoridades - alguns acreditam que essa tenha sido a razão pela qual o médico, cujo centenário de nascimento foi celebrado na última segunda, não alcançou o merecido crédito no Reino Unido.

"Na nossa família, Frank é lembrado como uma grande personalidade completamente dedicada ao trabalho, mas que era o centro das reuniões familiares em que ele chegava invariavelmente com uma hora de atraso", disse Victoria Jordan, sua sobrinha-neta.

"Era uma companhia agradável, tinha um jeito árduo e uma opinião crítica em relação às autoridades - em particular, aos políticos."


Expulso da escola

Quem acompanhou a infância problemática de Pantridge dificilmente arriscaria que um dia ele salvaria tantas vidas com sua invenção - como a do ex-jogador de futebol Fabrice Muamba, que teve um ataque cardíaco durante um jogo em 2012 e foi salvo pelo uso do desfibrilador portátil.

Frank Pantridge foi homenageado com estátua em Lisburn, onde estudou

Ele cresceu em uma fazenda nas cercanias do vilarejo de Hillsborough, na Irlanda do Norte, e perdeu o pai aos dez anos.

Mas mesmo após ter sido expulso da escola algumas vezes, se formou na vizinha Lisburn e, em 1939, concluiu o curso de Medicina na Queen's University, em Belfast.

Durante a Segunda Guerra Mundial, ele foi enviado para o Extremo Oriente como médico de um batalhão de infantaria. Em 1942, foi capturado em Cingapura e, como prisioneiro de guerra, passou muito tempo fazendo trabalhos forçados nos trilhos de trem de Mianmar (antiga Birmânia).


Reconhecimento militar

Pantridge sobreviveu à beribéri - doença na qual a falta de uma vitamina prejudica o coração -, o que pode ter despertado seu interesse pelos males cardíacos.

Fabrice Muamba foi salvo por desfibrilador portátil após ataque cardíaco

O médico foi reconhecido pelo seu trabalho militar e ganhou uma medalha com a seguinte citação: "Este homem trabalhou diante das condições mais adversas, em meio a bombardeios, e foi inspiração para todos com quem esteve em contato. Ele permaneceu absolutamente calmo mesmo diante da mais intensa artilharia".

Em 1950, ele foi nomeado como físico no Hospital Royal Victoria, em Belfast. Naqueles tempos, as doenças coronárias haviam atingido patamares de epidemia.

Os médicos sabiam que a maioria das mortes relacionadas a esses males resultava de um distúrbio no ritmo dos batimentos cardíacos, que poderia ser corrigido com um choque elétrico no peito.

Pantridge sugeriu que tais distúrbios deveriam ser corrigidos onde acontecessem - fosse no trabalho, em casa ou na rua. Mas isso significava ter de usar um desfibrilador portátil, algo que ainda não existia.

Foi assim que, com a ajuda de outras duas pessoas, o professor inventou em 1965 o primeiro desfibrilador portátil do mundo, que usava as baterias dos automóveis.

O aparelho foi instalado na ambulância local e foi usado pela primeira vez em janeiro de 1966. O primeiro modelo pesava 70 kg - hoje, a versão mais moderna pesa apenas 3 kg.

A invenção de Pantridge usava baterias de carro

No Reino Unido, porém, a invenção alcançou uma modesta participação - só em 1990 os aparelhos foram colocados nas ambulâncias.

Nos EUA, a história foi diferente. Com o chamado "Plano Pantridge", os equipamentos foram rapidamente colocados em operação em vários hospitais do país.

Em um dos casos mais emblemáticos, o desfibrilador portátil foi usado para socorrer o ex-presidente Lyndon Johnson após ele sofrer um ataque cardíaco na Virgínia, em 1972.

Frank Pantridge se tornou tão conhecido em terras americanas à época que chegaram a dizer que ele poderia se candidatar ao Congresso.


Legado

Morto em 2004, Pantridge era visto como uma pessoa franca e complexa.

Em seu obituário no jornal inglês The Guardian, lia-se: "Inquestionavelmente focado e brilhante, trouxe avanços únicos para a cardiologia. Podia ser briguento, áspero e às vezes rude, mas era também generoso. Para gostar de uma pessoa, tinha que respeitá-la, e daí seria um amigo leal."

O impacto de Frank Pantridge na medicina ainda é sentido hoje em dia

Muitos no campo da Medicina acreditam que a sua natureza franca, sem rodeios, e os problemas com as autoridades foram o motivo de ele não ter recebido o merecido reconhecimento.

Frank Kelly, integrante da equipe que colocou o desfibrilador em produção, diz ter boas memórias do tempo em que trabalhou com o cardiologista.

"Ele era um homem muito talentoso", disse. "Fez o desfibrilador se tornar mais acessível e salvou muitas vidas. Ficou feliz de ter participado disso."

Segundo a sobrinha-neta Victoria Jordan, os feitos de Pantridge são motivo de muito orgulho para a família.

"Acho que ele ficaria satisfeito por ser lembrado como pioneiro no seu ramo da Medicina. E como alguém que dava valor às suas raízes."

COMO O KUNG FU SE TORNOU O SÍMBOLO DE UMA NOVA ERA PARA MONJAS DO NEPAL

Monjas de Druk Gawa Khilwa são as únicas que lutam kung fu no Nepal

O relógio mal chegou às 5h, mas no Monastério de Druk Gawa Khilwa, em Katmandu, a capital do Nepal, as monjas já iniciaram seu treino de kung fu.

Com uma perna dobrada à frente e a outra esticada para trás, saltam repetidamente, buscando a perfeição em uma série de exercícios de chutes. Gritos pontuam cada movimento, obedecendo ao ritmo de tambores à volta. Vestidas em robes marrons, adaptados para facilitar os movimentos, estão sorrindo, apesar do esforço.

Elas são as "monjas do kung fu", integrantes da única ordem feminina que pratica a mortal arte marcial popularizada por Bruce Lee.

O sistema monástico budista é patriarcal e considera as mulheres inferiores aos homens. Monges normalmente ocupam todas as posições de liderança, deixando para as monjas funções domésticas e trabalhos mais simplórios.

Mas em 2008 o líder espiritual Gyalwang Drukpa provocou uma revolução.


Defesa pessoal

Depois de uma visita ao Vietnã, na qual viu religiosas recebendo treinamento de combate, Gyalwang Drukpa decidiu levar a ideia para o Nepal e encorajar suas monjas a aprender defesa pessoal.

O motivo era simples: promover a igualdade de gênero e empoderar as jovens mulheres, que em sua maioria vêm de regiões pobres da Índia e do Tibete.

Monastério conta com lanchonete e albergue administrado pelas freiras

Diariamente, 350 monjas com idade entre 10 e 25 anos participam de três intensas sessões de exercícios. Além de posições e golpes, treinam com armas tradicionais como espadas, sabres, lanças e o nunchaku.

As que apresentarem maior força física e mental são treinadas na técnica de quebra de tijolos, que só é utilizada em cerimônias especiais, como o aniversário de Drupka.

As monjas dizem que o kung fu faz com que elas se sentam mais seguras, desenvolve a autoconfiança e as permite ficar em forma. Mas há ainda o bônus da melhora na concentração, algo útil na hora de sentar e meditar.

Jigme Konchok, de pouco mais de 20 anos e praticante do kung fu há cinco, explica o processo.

"Preciso estar constantemente a par de meus movimentos, saber se a técnica está correta ou não e corrigir imediatamente se necessário. Tenho que concentrar minha atenção na sequência de movimentos que memorizei e em cada movimento por vez. Se a mente vaga, o movimento sai errado ou o bastão cai. É a mesma coisa na meditação."

Cerca de 350 monjas treinam kung fu todos os dias


Novos tempos

Em nome da igualdade de gênero, o Gyalwang Drukpa também encoraja as monjas a aprender tarefas tradicionalmente masculinas no sistema budista, como encanamento, instalações elétricas, ciclismo e até mesmo aprender inglês.

Sob sua tutela, elas são treinadas para conduzir as sessões de oração e recebem noções de técnicas de administração - trabalho tipicamente feito pelos monges. Também cuidam do albergue e da lanchonete mantidos pelo monastério. São elas que conduzem os jipes para ir buscar suprimentos em Katmandu.

Imbuídas da nova confiança, as monjas estão empenhando suas habilidades e energia para o desenvolvimento comunitário.

Quando o Nepal foi atingido por um violento terremoto, em abril do ano passado, as elas se recusaram a abandonar a região e percorreram várias comunidades afetadas para abrir caminho para os serviços de resgate, além de distribuir comida para os sobreviventes e ajudar a montar barracas para os desabrigados.

No início de 2016, as monjas, comandadas pelo líder espiritual, percorreram os 2,2 mil km que separam Katmandu de Déli, na Índia, para fazer campanha por meios ecologicamente mais limpos de transporte.

Quando passaram por áreas turbulentas, como a Caxemira (território disputado por Índia e Paquistão), deram palestras sobre tolerância e diversidade.

Mas a prioridade na agenda das monjas é o empoderamento feminino. "O kung fu nos ajuda a desenvolver um certo tipo de confiança para cuidarmos de nós mesmas em horas de necessidade", explica Konchok.

COMO A LÂMPADA ELÉTRICA PROVOCOU UMA REVOLUÇÃO CIENTÍFICA E SE TORNOU UM PESADELO PARA ALBERT EINSTEIN

Jim Al-Khalili
Físico teórico, especial para a BBC

A lâmpada foi responsável pelo nascimento de uma das teorias mais importantes da ciência

Apesar das complexidades da vida diária, as regras do nosso universo parecem reconfortantemente simples: a água de um rio sempre flui montanha abaixo, a pedra que você joga das margens sempre cai seguindo a mesma curva previsível.

Mas quando os cientistas se debruçaram para pesquisar sobre os minúsculos blocos elementares da matéria, toda a certeza se dissipou: eles encontraram o estranho mundo da mecânica quântica.

Se olharmos profundamente tudo que nos cerca, encontramos um universo completamente diferente do nosso.

Parafraseando um dos fundadores da mecânica quântica, "o que chamamos de real é formado por coisas que não podemos considerar reais".

Há cerca de cem anos, vários dos maiores cientistas da história entraram nesse mundo estranho e descobriram que nesse reino diminuto os objetos podem estar em dois lugares ao mesmo tempo e que o destino é ditado pelo acaso - trata-se de uma dimensão na qual a realidade desafia o senso comum.

E eles então se depararam com uma possibilidade aterrorizante: a de que tudo que pensávamos e sabíamos sobre o mundo poderia estar completamente errado.

E a história de nossa caminhada ao delírio científico começou com um objeto muito improvável.


Berlim, 1890

Na Alemanha do século 19, várias empresas de engenharia compraram patente da lâmpada elétrica

A Alemanha era um novo país, recentemente unificado e ansioso pela industrialização.

Várias empresas de engenharia foram fundadas e foram gastos milhões na compra da patente europeia da nova invenção de Thomas Edison: a lâmpada elétrica, a epítome da tecnologia moderna e um grande símbolo otimista de progresso.

As companhias de engenharia sabiam que poderiam ganhar fortunas se encarregando de iluminar as ruas do novo império alemão.

O que não se conseguiu prever então foi que isso iniciaria uma revolução científica. Ainda que pareça estranho, esse simples objeto foi responsável pelo nascimento de uma das teorias mais importantes de toda a ciência: a mecânica quântica.


Como?

O foco de luz apresentava um problema estranho. Os engenheiros sabiam que se os filamentos esquentavam com a eletricidade, eles brilhavam. Mas não sabiam por quê.

Algo tão básico como a relação entre a temperatura do filamento e a cor da luz que produzia era um mistério total, que eles obviamente desejavam resolver.

Com a ajuda do Estado alemão, os pesquisadores teriam como viabilizar isso. Em 1887, o governo investiu milhões em um novo instituto de pesquisa técnica em Berlim, o Physikalisch-Technische Reichsanstalt, ou PTR.

Em 1900, contrataram um cientista brilhante, ainda que um pouco purista, para desenvolver pesquisas no local: Max Planck.

O trabalho de Max Planck em mecânica quântica lhe rendeu o Nobel de Física em 1918

Ele se propôs a resolver o problema aparentemente simples da mudança de cor do filamento com a temperatura.

Para fazer isso, Planck e sua equipe fizeram um tubo especial que podiam esquentar a temperaturas muito precisas junto com um dispositivo que media a cor ou a frequência da luz que produzia.

Na medida em que a temperatura aumentava, as cores mudavam: a 841°C, a luz era vermelha alaranjada. A 2000°C, mais brilhante e branca.

Foi então que comprovaram que, para chegar a essa tonalidade, precisavam de 40 quilowatts.

Mas algo chamou a atenção: aquela luz era mais que branca, era branca avermelhada, quase não tinha azul.

Com surgimento das lâmpadas, cientistas se perguntaram por que a luz emitida não era mais azul, como nas velas

Por que era tão difícil chegar ao azul? E mais adiante do azul no espectro, a chamada luz ultravioleta quase não se produz.

Nem sequer uma estrela como o Sol, que arde a 5000°C, produz tanta luz ultravioleta como se pode imaginar diante de sua temperatura.


A catástrofe e o efeito

Essa extraordinária falta de sentido deixou os cientistas do final do século 19 tão perplexos que eles a batizaram com um nome um tanto dramático: a catástrofe ultravioleta.

Planck então deu o primeiro passo para resolvê-la: encontrou um vínculo matemático preciso entre a cor e a luz, sua frequência e sua energia, ainda que não tenha compreendido a relação entre elas. Mas foi outra estranha anomalia que se tornou o pulo do gato para a descoberta.

No final do século 19, os cientistas estavam estudando as então recém-descobertas ondas de rádio e a maneira como faziam as transmissões.

Para tanto, construíram aparelhos com discos giratórios que podiam gerar alta voltagem, o que produzia faíscas entre as duas esferas de metal.

"Por que iluminar esferas feitas de metal faziam com que as faíscas fossem mais rápidas?", se perguntavam os cientistas

Ao fazer isso, eles descobriram algo inesperado relacionado à luz.

Se dirigiam uma luz poderosa para iluminar as esferas, as faíscas saíam com mais facilidade. Isso indicava que havia uma conexão misteriosa e inexplicável entre a luz e a eletricidade.

Mais que isso, a conexão era com a luz azul e ultravioleta, não com a vermelha.

Esse novo quebra-cabeça foi batizado de efeito fotoelétrico, que, com a catástrofe ultravioleta, se converteu em um sério problema para os físicos, pois ninguém podia resolver as questões mesmo com as técnicas mais avançadas da ciência da época.


Quantum

Por que a luz vermelha intensa não conseguia produzir o que a frágil ultravioleta alcançava em segundos?

Para resolver o problema, alguém teria que pensar o impensável - e em 1905, alguém fez exatamente isso.

E esse alguém foi Albert Einstein. O que ele sugeriu foi revolucionário.

Não foi pela Teoria da Relatividade que Einstein recebeu o Nobel, mas "especialmente por sua descoberta da lei do efeito fotoelétrico"

Ele argumentou que era preciso esquecer que a luz era uma onda e pensá-la como um fluxo de partículas. O termo que usou para denominar essas partículas de luz foi "quanto" - do latim quantum, que significa quantidade.

Apesar de a palavra ser nova, a ideia de que a luz poderia ser um quantum era mais que excêntrica. E foi justamente seguindo essa linha de raciocínio que Einstein chegou à sua conclusão lógica que acabou solucionando todos os problemas com a luz.


Grandes traços

De acordo com a proposta de Einstein, cada partícula de luz vermelha tem pouca energia porque sua frequência é baixa - o contrário do que ocorre com a luz ultravioleta.

Era por isso que, no efeito fotoelétrico, a ultravioleta era a que tinha forças para mudar o que ocorria com a eletricidade.

E era por isso que na catástrofe ultravioleta a lâmpada não brilhava com luz azul nem ultravioleta, pois isso requeria muito mais energia.

A luz ultravioleta iluminou a revolução na física

"Esse momento, no começo do século 20, marcou uma revolução genuína, pois demonstrou que a Física tinha que ser abordada de maneira completamente nova", diz o historiador da ciência e físico Graham Farmelo.

"Foi aí que a Física moderna realmente começou."


Um legado difícil de resolver

Foi assim que uma simples pergunta - "como funcionam as lâmpadas de luz?" - levou cientistas até as profundidades do funcionamento escondido da matéria, a explorar os componentes subatômicos do nosso mundo e a descobrir fenômenos até então inéditos.

Foi assim que se abriram as portas da física quântica.

Cientistas chegaram a propor teorias tão estranhas que um deles, o brilhante Neils Bohr, chegou a dizer que se alguém não se sentia confuso com a mecânica quântica era porque não a havia entendido.

E foi assim que ele e seus colegas que criaram a mecânica quântica - uma teoria maluca da luz que acolhe a contradição, não importando se é quase impossível de entender.

Uma ciência que argumentava coisas tão inusitadas como que não é possível saber onde está um elétron até que se consiga tirar suas medidas - e não apenas que não se sabe onde o elétron está, mas que ele está em todas as partes ao mesmo tempo.

Bohr e Einstein discutiram durante anos sobre a mecânica quântica

Mas Albert Einstein, que abriu as portas deste mundo, pouco depois se sentiu incomodado com o caminho que ele havia tomado.

Einstein odiava a ideia de que a natureza, no seu nível mais fundamental, estava governada pelo acaso. Tampouco gostava da ideia de que o saber tinha um limite.

Estava convencido de que tinha que haver uma teoria subjacente menor e até chegou a propô-la.

Durante anos Einstein e Bohr discutiram apaixonadamente sobre a mecânica quântica implicar na renúncia da realidade ou não. E morreram deixando essa interrogação.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

A EX-TESTEMUNHA DE JEOVÁ QUE VIROU VOZ DO FUNK TRANSGÊNERO

Conheci o som da MC Linn no evento Periferia Trans, que aconteceu no Grajaú há um tempo atrás. Além dela, também participou o Rico Dalasam. Juntas, elas são algumas das pessoas que levantam temas muito importantes sobre questões do movimento LGBT nas letras de suas músicas.

* * *

MC Linn da Quebrada cresceu no interior paulista em uma família simples e religiosa. A mãe, alagoana, era empregada doméstica, e ela cresceu entre Votuporanga e São José do Rio Preto, até retornar à zona de leste de São Paulo e se tornar uma das novas vozes de um movimento crescente na música brasileira: a dos artistas que colocam em pauta a questão do gênero.

Transexual de 25 anos, MC Linn não fala só sobre os direitos TLGB (Transexuais, Lésbicas, Gays e Bissexuais), mas trata também do direito de ser afeminada, ou de "enviadecer", como ela coloca em uma das suas músicas com conteúdo bem explícito e cujos videoclipes já têm mais de cem mil visualizações no YouTube.

"Passei uma vida inteira ouvindo que 'ser viado não é uma coisa legal', que ser travesti é perigoso e vai trazer problemas. E eu não estou dizendo que é fácil, mas que é possível e lindo ser transviada - é uma possibilidade feliz.

"Eu venho de uma criação religiosa muito rígida, eu era testemunha de Jeová, então tive o corpo muito disciplinado, domesticado pela Igreja e pela doutrinação, que me privava dos meus desejos. Era como se ele não me pertencesse. Até eu tomar o bastião de liberdade há alguns anos e me assumir", conta.

Ela chegou a fazer alguns raps, mas foi no funk que encontrou a melhor forma de se expressar.

"Eu vivi na periferia com minha mãe, e lá a música comunica - música como o funk, o samba, de preto e preta, de linguagem direta, que movimenta o corpo. Também ali tive contato com as músicas TLGB, músicas de bicha, que estão nas baladas. E percebi que esse tipo de música me movimentava mas estava somente relacionada ao universo machista. E por acreditar que a música também é um espaço a ser ocupado e contaminado, por que não eu fazer algo que eu quisesse ouvir? Foi aí que eu decidi começar meu trabalho com as minhas histórias."


A explosão do gênero na música

Assim como Linn, outros artistas como Liniker, As Bahias e a Cozinha Mineira, Jaloo e Johnny Hooker também vêm abordando as questões de gênero - nem sempre por discursos explícitos nas letras, mas pela exposição de mídia e por se colocarem como são - trans, não binários, travestis - ao público.

Linn atribui essa explosão de artistas que tratam de alguma forma da questão de gênero às redes criadas pela internet e reconhece que "há interesse em que isso se torne um produto de alguma forma".

"Estamos num momento de tomada dos meios de produção, a internet facilitou as coisas. A diferença é que hoje nós conseguimos ser vistas: consigo ver que tem trans lá no Nordeste fazendo coisas maravilhosas de que eu não iria saber antes. Eu mesma, bicha da favela, consigo ser vista e conhecida pelo meu trabalho. Além disso, acho que há um interesse mercadológico nisso tudo."


'Terrorista de gênero'

Ativista, MC Linn colaborou com a formação da ONG ATRAVESSA (Associação de Travestis de Santo André) e se considera "bicha, trans, preta e periférica. Nem ator, nem atriz, atroz. Performer e terrorista de gênero".

Questionada pela reportagem sobre a necessidade de ser uma "terrorista" nesse sentido, ela responde com outra pergunta: "Será que não fomos por tempo demais inofensivas? Não está na hora de a gente passar a dar medo, a assustar? E também a se assustar, se pôr em risco? Por isso me coloco nessa posição: eu quero duvidar da imagem consolidada há tanto tempo no espelho. Eu quebro esse espelho para que possa me reinventar. É preciso ter muita coragem para sair como eu saio na rua, porque as pessoas não matam só com faca ou com balas. O discurso também mata. Os olhares pelas ruas também nos matam e nos oprimem, e é preciso que todos os dias eu mesma me encoraje para poder ser".

E trabalho dela, além de autoral tem também um viés político de "empoderamento".

"Tudo que a gente faz é politica. A roupa que eu escolho para sair na rua é política, a escolha de sair maquiada ou não também. Cada palavra que eu digo numa musica ou numa conversa informal é política, tem efeitos e diz respeito a uma atitude, a um posicionamento."

MC Linn aposta no efeito que a obra dela pode ter - para si mesma, para outras trans e para o mercado da música no Brasil.

"Apesar da facilidade maior de produzir, não é fácil entrar em alguns espaços. Para algumas pessoas como eu, às vezes não é fácil nem sair de casa, é um ato de coragem tomar o próprio corpo. Então eu espero que minha música consiga ser ouvida e com isso, outras pessoas possam ter a coragem de ser, de existir, e a gente possa estabelecer esses vínculos para sobreviver", diz.

"Eu não sou a rainha do empoderamento, uma diva, nada disso. Eu sou só uma bichinha da favela, mais uma, como qualquer outra - e qualquer outra também pode produzir."


segunda-feira, 3 de outubro de 2016

HEDONISMO EPICURISTA E A VERDADEIRA SABEDORIA


Por Fernando Nogueira da Costa

Segundo José Américo Motta Pessanha, na Introdução do volume da Coleção Os Pensadores dedicado à obra de Epicuro, com sua concepção materialista da realidade, Epicuro pretende libertar o homem dos dois temores que o impediriam de encontrar a felicidade:

1 - o medo dos deuses e
2 - o temor da morte.

Os deuses existem, afirma Epicuro, mas seriam seres perfeitos que não se misturam às imperfeições e às vicissitudes da vida humana. Os deuses viveriam em perfeita serenidade nos espaços que separam os mundos.

Suas perfeições supremas constituem o ideal a que aspiram os sábios e deve ser objeto de culto desinteressado. Não teria sentido adorá-los de maneira servil, temerosa e interesseira, pois eles desconhecem o mundo imperfeito dos homens e de modo algum atuam sobre ele.

Quanto à morte, não há também por que temê-la. Ela não seria mais que a dissolução do aglomerado de átomos que constitui o corpo e a alma. Amorte, portanto, não existe enquanto o homem vive e este não existe mais quando ela sobrevém.

A libertação do temor dos deuses e da morte não basta para conduzir o homem à verdadeira felicidade. É necessário ainda que ele se liberte:

1 - da ânsia incontrolada de prazeres e
2 - do incontido pesar pelas dores.

A luminosidade racional da doutrina atomista permitiria ao homem:

1 - afastar os sombrios temores que lhe intranquilizavam a alma,
2 - bem como reconhecer-se como um ser perfeitamente integrado na natureza universal.

Enquanto ser natural, o homem — como os outros animais — pauta sua vida, espontaneamente:

1 - pela procura do prazer e
2 - pela fuga da dor.

Mas a verdadeira sabedoria está além desse comportamento natural e espontâneo: sábio é reconhecer que há diferentes tipos de prazer, para saber selecioná-los e dosá-los. O hedonismo epicurista reconhece que o ponto de partida para a felicidade está na satisfação dos desejos físicos, naturais.

Mas essa satisfação, para não acarretar sofrimentos, deve ser contida, reduzindo-se ao estritamente necessário: sábio é aquele que, mesmo com poucos bens de subsistência, alcança muita felicidade.

Epicuro considera que todo prazer é basicamente um prazer corpóreo. Mas o prazer que o homem deve buscar não é o da pura satisfação física imediata e mutável, “o prazer do movimento“.

Para Epicuro, o prazer que deve nortear a conduta humana — o prazer com dimensão ética e não apenas natural — é “o prazer do repouso”, constituído pela ausência de perturbação e pela ausência de dor. Ambas podem ser alcançadas na medida em que o homem, através doautodomínio, busque a autossuficiência que o torne um ser que tem em si mesmo sua própria lei, um ser autárquico, capaz de ser feliz e sereno independentemente das circunstâncias.

Para tanto, deve renunciar aos prazeres que possam ser fontes de aflição e aceitar a dor quando ela é portadora de um bem futuro. Este nunca deve ser confundido com a suposta vida depois da morte.

É necessário, portanto, fazer um cálculo utilitário dos prazeres e das dores possíveis, como primeiro passo para a conquista da felicidade. Epicuro, porém, reconhece que as circunstâncias podem impor a dor como um fato inelutável.

Sabedoria será então utilizar a liberdade interior e, através do artifício que essa liberdade permite, permanecer sereno e feliz. À dor presente, ensina Epicuro, pode se escapar:

1 - por meio da lembrança dos prazeres passados ou
2 - pela expectativa de prazeres futuros.

Interiormente, o homem é livre para jogar, à vontade, com as imagens que seriam resquícios corpóreos (formados de átomos mais tênues) de suas sensações.

Epicuro — ele próprio um homem doente e vítima de terríveis sofrimentos físicos — teria dado a demonstração dessa técnica interior de evasão, capaz de permitir ao homem enfrentar serenamente as mais adversas circunstâncias, inclusive uma eventual ausência de liberdade política.

Seu hedonismo altamente espiritualizado, que fazia da contemplação intelectual e das delícias da amizade os mais elevados prazeres, legou às éticas posteriores uma lição que nunca mais será esquecida: a de que o homem também pode se sustentar de recordações e de esperanças, quando o “tornar-se presente” lhe aflige.

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

AOS 14 ANOS, ARTISTA BRITÂNICO É COMPARADO A MONET

É lendo este tipo de notícia que confirmo algo que escrevi há um tempo atrás em um texto, numa época em que estava refletindo sobre o inatismo e o empirismo: Algumas pessoas nascem com uma predisposição para executar com primazia determinada atividade.


Um jovem britânico está ganhando milhares de libras como pintor - mesmo tendo apenas 14 anos.

Kieron Williamson já foi comparado a Monet e Picasso, por sua habilidade precoce e pelos traços impressionistas de algumas de suas obras lembrarem os do pintor francês.

Ele sempre gostou de tintas e pincéis. Aos 6 anos, ele abriu sua primeira mostra e vendeu 16 pinturas em 14 minutos.

Aos 14 anos, suas obras são um sucesso de vendas: o preço pago por cada um de seus quadros equivale a cerca de R$ 230 mil.

Ele se diz atraído pela "sensação de pintar. A inspiração constante me leva a continuar".

Fonte: 

GOTAS D'ÁGUA, INVERTEBRADOS E LAGARTIXA CONTAM 'HISTÓRIAS DA CIÊNCIA' EM 15 FOTOS PREMIADAS

Penso que a linda imagem abaixo remete um pouco à ideia do multiverso.

Premiação da Royal Photographic Society, uma das mais antigas sociedades fotográficas do mundo, recebeu mais de 2.500 inscrições.

Outras inscrições surpreendentes incluem esta foto de gotas de água capturadas em uma teia de aranha, ampliando as flores por trás dela. A imagem, batizada de Miniature World, foi feita por Hiep Nguyen.


sexta-feira, 9 de setembro de 2016

A LASTIMÁVEL INDÚSTRIA DA CARNE

Notícia do Repórter Brasil: Choques, socos e pauladas: a vida do gado que vira bife

Argumentos de algumas pessoas e minhas respectivas respostas para eles:

“Mas a maioria das pessoas come carne, mesmo se você parar, os animais continuarão sofrendo.”

Eu penso pela minha própria cabeça, não pela da maioria.
  
"Mas na churrascaria tem bastante salada."

Penso que nós, pessoas que, por uma questão ética, decidiram se tornar vegetarianas ou veganas, sempre nos atentamos ao que comemos e consumimos, e vamos além, pois também nos importamos com a origem de todos os produtos que utilizamos no nosso dia a dia. Adotar esta postura engloba até o boicote de estabelecimentos que promovem o sofrimento dos animais.

Gado é identificado com ferro quente em seu rosto. 
Foto: Piero Locatelli/Repórter Brasil

terça-feira, 10 de maio de 2016

O DIA CERTO PARA CADA MUSEU EM SÃO PAULO

Instituições têm calendário fixo de entradas grátis

SÃO PAULO - Quem disse que precisa gastar para conhecer ou conferir exposições dos museus de São Paulo? Além dos espaços com entradas sempre grátis, pelo menos nove instituições paulistanas reservam um ou mais dias na semana para entrada livre. 

A entrada no Masp é grátis às terças. Nos outros dias, o ingresso custa R$ 15

Em alguns, como o Museu do Futebol e a Pinacoteca, a gratuidade é de dois dias por semana. Isto porque, em maio, a Secretaria de Estado de Cultura determinou que os 18 museus mantidos pelo governo estadual teriam ao menos o sábado com ingressos grátis. 

Confira nossa lista e se programe para o próximo passeio:


Museu do Futebol

Inaugurado em 2008, no avesso das arquibancadas do Estádio do Pacaembu, a casa conta a história do futebol e a paixão do brasileiro pelo esporte. No período da Copa do Mundo, o espaço recebe a mostra "Brasil 20 Copas" que ilustra a participação da seleção brasileira nos mundiais. 
O museu tem entrada grátis às quintas e sábados. No outros dias, os ingresso custa R$ 6.

Informações:
Praça Charles Miller, s/n - Pacaembu
Contato: (11) 3664-3848 ou www.museudofutebol.org.br
Funcionamento: de terça a domingo, das 9h às 18h.


Museu da Língua Portuguesa

Inaugurado em 2006, na Estação da Luz, ele é dedicado à nossa língua e suas relações sociológicas e antropológicas, em um espaço com muitos recursos interativos. Durante o mundial, a exposição "O Futebol na Ponta da Língua" vai apresentar o vocabulário cotidiano no Brasil.
O museu tem entrada grátis às terças e sábados. Nos outros dias, o ingresso custa R$ 6.

Informações:
Praça da Luz, s/n - Luz
Contato: (11) 3322-0080 ou www.museudalinguaportuguesa.org.br
Funcionamento: diariamente das 10h às 18h


Museu da Casa Brasileira

O museu é um dos únicos no País especializado em design e arquitetura. Na programação, as exposições "Arte Nativa Aplicada" e "Vespa: um ícone italiano".
O museu tem entrada grátis aos sábados. No outros dias, o ingresso custa R$ 4.

Informações:
Avenida Brigadeiro Faria Lima, 2.705 - Jardim Paulistano
Contato: (11) 3032-3727 ou www.mcb.org.br
Funcionamento: de terça a domingo, das 10h às 18h.


Pinacoteca de São Paulo

Fundado em 1905, é o museu mais antigo de São Paulo, dedicado às artes visuais brasileiras do século 19 à contemporaneidade. 
A entrada é grátis às quintas, depois das 17h, e aos sábados. Nos outros dias, o ingresso custa R$ 6.

Informações:
Praça da Luz, 2 - Luz
Contato: (11) 3324-1000 ou www.pinacoteca.org.br
Funcionamento: de terça a domingo, das 10h às 17h30 (com permanência até as 18h); às quintas, a casa funciona até as 22h.


Catavento Cultural e Educacional

Com mais de 250 instalações, o museu aborda a história da ciência e as tecnologias criadas pelo homem. Sempre com uma abordagem próxima do universo infantojuvenil. 
A entrada é grátis aos sábados. Nos outros dias, o ingresso custa R$ 6.

Informações:
Praça Cívica Ulisses Guimarães, s/n, Parque Dom Pedro II - Centro
Contato: (11) 3315-0051 ou www.cataventocultural.org.br/
Funcionamento: de terça a domingo, das 9h às 17h.


Museu de Arte Sacra da São Paulo

Localizado no histórico Mosteiro da Luz, o museu se dedica a homenagear a arte sacra desde 1970. Durante a Copa, há programação de férias com atividades recreativas para toda a família.
A entrada é grátis aos sábados. Nos outros dias, o ingresso custa R$ 6.

Informações:
Avenida Tiradentes, 676 - Luz
Contato: (11) 3326-3336 ou www.museuartesacra.org.br
Funcionamento: de terça a sexta, das 9h às 17h; de sábado a domingo, das 10h às 18h.


Museu da Imagem e do Som (MIS)

Com exposições e eventos concorridos, o museu aborda com interatividade o universo do audiovisual e suas principais tendências. Em julho, o espaço recebe uma grande mostra sobre o programa infantil da TV Cultura "Castelo Rá-Tim-Bum", sucesso de audiência nos anos 1990.
A entrada é grátis às terças e aos sábados somente nas exposições do térreo. Nos outros dias, o preço do ingresso varia de acordo com a mostra em cartaz.

Informações:
Avenida Europa, 158 - Jardim Europa
Contato: (11) 2117-4777 ou www.mis-sp.org.br
Funcionamento: de terça a sexta, das 12h às 22h; sábados, das 10h às 22h; domingos e feriados, das 11h às 21h.


Museu de Arte de São Paulo (Masp)

Na programação, um dos principais museus da cidade recebe, até agosto, a mostra "A Inusitada", com as obras de Sylvio Perlstein.
A entrada é grátis às terças. Nos outros dias, o ingresso custa R$ 15.

Informações:
Avenida Paulista, 1.578
Contato: (11) 3251-5644 ou www.masp.art.br
Funcionamento: de teça a domingo, das 10h às 18h; nas quintas, até as 20h.


Museu de Arte Moderna (MAM)

No Parque do Ibirapuera desde 1958, o museu é reconhecido por hospedar a Bienal Internacional de Arte e importante acervo de obras modernistas.
A entrada é grátis aos domingos. Nos outros dias, o ingresso custa R$ 6.

Informações:
Parque do Ibirapuera - acesso pelo Portão 3
Contato: (11) 5085-1300 ou www.mam.org.br
Funcionamento: de terça a domingo, das 10h às 17h30.


Celso Filho - O Estado de S. Paulo
23 Junho 2014 | 16h 31 - Atualizado: 24 Junho 2014 | 13h 27

segunda-feira, 9 de maio de 2016

MAIOR MOSTRA JÁ REALIZADA DE AUGUSTO DE CAMPOS REPASSA 65 ANOS DE CARREIRA DO CONCRETISTA

Em entrevista à ARTE!Brasileiros poeta fala sobre a exposição e sobre o momento político do país: “O que o Brasil está passando é obra em regresso”

Marcos Grinspum Ferraz 
06/05/2016 9:00, atualizada às 06/05/2016 11:54

Augusto de Campos durante entrevista no SESC Pompeia. Foto: Marcos Grinspum Ferraz

“O fato é que estes poemas caberiam melhor talvez numa exposição, propostos como quadros, que num livro”, escreveu certa vez o concretista Augusto de Campos, hoje aos 85 anos. Se caberiam melhor ou não, o certo é que a obra “verbovicovisual” – termo que se refere às dimensões semânticas, sonoras e visuais da palavra – do poeta paulistano cabe não só em livros e quadros, mas também em vídeos, colagens, esculturas, músicas, instalações, holografias e projeções. Decorre desta constatação a montagem da exposição REVER, em cartaz no SESC Pompeia, maior mostra dedicada à obra de Augusto de Campos já realizada.

“Eu acho que essas coisas já estavam potencialmente dentro da poesia concreta”, diz o autor sobre as várias plataformas utilizadas na mostra, inclusive as mais tecnológicas. “Claro que você não podia prever a que ponto chegaríamos, mas havia, virtualmente, pressupostos”, continua Augusto em entrevista a ARTE!Brasileiros. Nessa linha, como explica o curador da mostra, Daniel Rangel, o poema Desgrafite se tornou um grafite, Espelho foi impresso em cima de um grande espelho e assim por diante. “Muitos dos suportes que a gente escolheu para expor já estavam, entre aspas, nos livros”, afirma Rangel, que concebeu a exposição em diálogo constante com o poeta. Os livros, no caso, são os quatro lançados por Augusto ao longo da vida – Viva Vaia (1979), Despoesia (1994), Não (2003) e Outro (2015) – que, junto a outras peças e a manuscritos, são as bases da exposição.

Alguns dos suportes presentes também já haviam sido utilizados pelo autor ao longo se sua carreira de 65 anos, iniciada pouco antes de fundar ao lado de Haroldo de Campos e Décio Pignatari o grupo Noigandres, em 1952. A célebre poesia Viva Vaia, por exemplo, escrita em 1972 em homenagem a Caetano Veloso e exposta como uma grande escultura de aço em REVER, já havia sido apresentada neste formato outras vezes, mesmo que em reproduções menores. Vídeos, hologramas e animações, por exemplo, também não são novidades para o poeta, que sempre buscou acompanhar as tecnologias de cada época. “Até os vídeos em 3D, realizados pela primeira vez agora, já pediam o 3D antes mesmo dele existir”, diz Rangel. “Isso é uma característica do trabalho do Augusto, que sempre foi um vanguardista”. Se não fosse pela questão geracional, talvez o próprio autor estivesse produzindo com tecnologia de ponta em casa: “Comecei a trabalhar com meu próprio computador doméstico só em 1992. Então eu já tinha 60 anos, quando o ideal era ter 20”, brinca.

Escultura para “Viva Vaia” na mostra. Foto: Divulgação

Diante da diversidade de plataformas e linguagens utilizadas, Rangel afirma que a mostra tem como objetivo, além de apresentar uma grande retrospectiva (também prospectiva, segundo ele) do trabalho do autor, corrigir uma falha histórica que permanece ainda hoje. “Em qualquer biografia sobre Augusto, ele é considerado poeta, tradutor, crítico e ensaísta, mas nunca artista. E um dos objetivos desta exposição é corrigir um pouco esse erro, uma vez que ele é também um grande artista”. Perguntado sobre o assunto, Augusto relembra a célebre Exposição Nacional de Arte Concreta, em 1956, que lançou as bases do concretismo no País, reunindo poetas e artistas plásticos. “Então não esse, da arte, não me é um ambiente estranho, apesar de não ser tão frequente em uma exposição a presença de poetas”, diz ele. Mas Augusto também é um artista, não? “Eu suponho que sim”, responde o próprio, rindo.

A questão da falta de reconhecimento de Augusto enquanto artista é, na verdade, parte de uma possível falta maior, de reconhecimento da própria poesia concreta. Em entrevista, certa vez, o autor afirmou que os poetas concretos se defrontaram com um muro de negação diante de minoritários aplausos. “Isso mudou muito, hoje a poesia concreta está até em livros didáticos. Na crítica ainda há quem seja muito contra, mas isso é natural, até importante. Porque significa que você incomoda, e a arte tem que provocar, né?”. O curador é ainda mais contundente em sua afirmação: “Eu acho que a poesia concreta ainda está numa fronteira onde ela nem é tão reconhecida no campo da literatura, nem no campo das artes visuais. Então ela vive meio numa fronteira, numa espécie de limbo crítico”. Mas assim como o poeta, Rangel reconhece uma melhora no panorama. “Agora começa a cair mais a ficha das pessoas em relação ao Augusto, mas ele passou muito tempo numa espécie de ostracismo. Tanto é que uma exposição deste porte só acontece agora. Precisou chegar aos 85 anos pra ganhar uma exposição que ele pode realmente chamar de dele”.

Enquanto celebra os 65 anos de carreira e a realização de sua maior exposição, Augusto lamenta profundamente a situação do país e o possível afastamento da presidenta Dilma Rousseff. Autor do poema-colagem Psiu (1966) em plena ditadura militar e de outras obras relacionadas à vida política brasileira ao longo das décadas, Augusto não apresenta em REVER nenhum trabalho ligado diretamente ao conturbado momento atual, até mesmo porque a mostra foi planejada muito antes de ter inicio o processo de impeachment. “Mas, quem sabe, depois do circo grotesco que nós fomos obrigados a assistir pela televisão, proporcionado pela Câmara dos Deputados, a poesia possa trazer um pouco de sensibilidade, um pouco de consciência. Quem sabe pode dar um pouco de luz e de esperança para esse momento tão conturbado e triste”.

Relembrando que é também advogado e foi procurador do Estado durante 40 anos, Augusto argumenta que a destituição da presidenta não tem base jurídica sólida. Mas com a veia poética que fala mais alto, ele conclui trabalhando as palavras: “Fica até um paradoxo, porque o que se está vendo aqui, na exposição, é obra em progresso, e o que o Brasil está passando é obra em regresso”. 

A exposição “Rever_Augusto de Campos”. Foto: Marcos Grinspum Ferraz

Serviço – REVER_Augusto de Campos
Até 31 de julho
Sesc Pompeia – Rua Clélia, 73
11 3871-7700
Entrada gratuita

terça-feira, 3 de maio de 2016

O NOVO MANIFESTO DE AUGUSTO DE CAMPOS


O poeta, crítico e tradutor diz que a poesia e a vida musical retrocederam: “O Brasil está cem anos atrasado”

Luís Antônio Giron, do cmais+ Arte & Cultura
02/10/14 16:37 - Atualizado em 02/10/14 16:51

O tempo passou muito rápido, segundo o poeta Augusto de Campos. Talvez por isso ele continue a fazer aos 83 anos as mesmas coisas que faz desde a adolescência: traduzir poetas experimentais, discutir música contemporânea e montar poemas visuais e interativos. Também é a razão de ele analisar a cultura contemporânea de uma forma crítica e incisiva, que lembra os antigos manifestos que ele lançou nos anos 1950. No início da carreira, fundou com o irmão Haroldo de Campos (1929-2003) e o amigo Décio Pignatari (1927-2012) o movimento concreto, que preconizava a explosão do código verbal e a aproximação da poesia às artes visuais. Da premissa nasceram os “poemas ideogramas” que alteraram a forma de fazer poesia – e colecionaram inimigos estéticos definitivos. A inveja parece eterna, pelo menos no que diz respeito aos opositores dos poetas concretos em particular e da arte concreta em geral. Até hoje a obra deles provoca reações indignadas, numa prova de que a inovação incomoda e a força da arte concreta ainda persiste, mesmo tendo sido ultrapassada, talvez, por ulteriores vertentes experimentais. Mesmo assim, a expressão “poeta concreto” soa como um palavrão para muita gente.

Augusto pode ser descrito como um oitentão jovial, vigoroso, bem-humorado, coloquial-irônico, dotado de uma capacidade de argumentação e uma memória extraordinárias. Advogado aposentado (diríamos ‘aposentado e perigoso”, como no filme estrelado por John Malkovich), casado e avô, ele continua a morar no bairro das Perdizes, onde sempre morou. O apartamento é decorado com telas com artistas de vanguarda. Óleos de Hermelindo Fiaminghi (1920-2004) figuram lado a lado de cartazes com poemas concretos criados por Augusto, que não se diferenciam muito das telas. Sua biblioteca é tão pequena como abarrotada de livros e CDs – e, mesmo assim, muito confortável.

O poeta não se deixa enganar pela zona de conforto. Cada fala sua assume o aspecto de manifesto. Não estampa mais ensaios e seus poemas (que entregava já diagramados) em jornais, mas na internet. Acaba de publicar no site Zunai um conjunto de traduções de poemas juvenis do russo Vladímir Maiakóvski, poeta ao qual retorna de tempos em tempos. Seu maior best-seller Pagu: vida-obra, lançado em 1983 pela editora Brasiliense, biografia da escritora modernista e ativista política Patrícia Galvão (1902-1962), ganha a quarta edição pela companhia das Letras, com revisões e um projeto gráfico mais sofisticado. “Não tem muita coisa nova”, afirma ao cmais. “ Mas eu corrigi erros, informações. Aumentei bibliografia, incluí um texto, acrescentei uma entrevista muito boa que eu fiz com o Mário Sérgio Conti. A edição vai ter maior qualidade em ilustrações. Bem melhor que a parte iconográfica do livro pela editora Brasiliense que teve três edições e foi bem, diferente do que aconteceu com outros livros nossos.”

A visita aconteceu em 15 de setembro. Augusto nos recebeu – o poeta Fábio Malavoglia, apresentador do programa Rádio Metrópolis da rádio Cultura FM e este repórter – com gentileza e simpatia (ouça trecho da entrevista abaixo).  “Estou com tempo agora”, diz. “Eu acabei de terminar meu livro de ensaios sobre música.” Além disso, está com dois livros a ser publicados pela editora Perspectiva, sem data prevista de lançamento: um volume de poemas escritos nos últimos dez anos cujo título não revela e Música de Invenção 2, reunião de ensaios sobre música contemporânea. “Sempre produzi pouca poesia”, diz. Ele contou que nos últimos 30 anos, tem composto poemas “verbo-voco-visuais”, como diz, no computador. Não está otimista com a poesia jovem brasileira, mergulhada, afirma, no pós-modernismo, uma máscara para praticar arte pré-moderna. Segundo ele, os poetas deveriam se atualizar aprender a trabalhar no meio digital. Ele não quer se meter na poesia dos novos. “Poetas velhos não têm que se meter com poetas novos”, diz (leia a íntegra da entrevista).

Sua preocupação hoje é com aquilo que ele chama de um escândalo: o fato de a música erudita contemporânea ter sido alijada do público brasileiro. “Eu considero uma das maiores tragédias culturais brasileiras o fato de o público não se ter praticamente acesso ao que aconteceu na música erudita moderna, na chamada música contemporânea, num gap de cem anos. O Brasil está cem anos atrasado.” E reforça: “Um século de atraso! Como se o público brasileiro não tivesse inteligência e sensibilidade para ouvir música de alto repertório.” Indigna-se porque o século XX acabou e quase ninguém conhece a música que foi feita no período. Como se não bastasse, o século XX já tem 14 anos e poucos conhecem os compositores atuais. Augusto queria que seus textos ajudassem a derrubar o “star system” da música clássica, que entronizou o repertório do Romantismo em detrimento da música criativa e atual. Sobre a música popular, diz que já fez o suficiente por ela. “Hoje a música popular é vencedora. Preciso ajudar a erudita contemporânea.” Mas avisa: “Não sou historiador de música nem musicólogo no sentido mais estrito da palavra. Faço uma crítica stop-gap, tapa-buraco. Eu vou onde acho que está faltando e as pessoas desconhecem”.

Augusto continua a seguir o breviário da revolução das artes e o rompimento com a tradição. Ele adquiriu a crença na juventude, quando se apaixonou pelas vanguardas artísticas do início do século XX impulsionadas pela revolução da tecnologia. Foi assim que participou da fundação do movimento concreto em 1955. A onda começou pela poesia, e se expandiu para as artes plásticas e a música. Foi um dos movimentos artísticos mais influentes dos anos 1960. Colocou em xeque a literatura baseada mais no conteúdo que na forma. Educou o público para a arte geométrica. Como conceito de “linha evolutiva da música popular brasileira”, ajudou a consagrar a Bossa Nova e a Tropicália. Augusto discorre sobre as várias vertentes do concretismo como da primeira vez em que foi interrogado sobre o tema. Um tema ainda polêmico passados mais de 60 anos do início do movimento.

A paixão pela controvérsia parece lhe dar força para continuar a debater, analisar e manter a racionalidade, além de possuir uma inquebrantável teimosia. “Sou um sobrevivente”, afirma. “Sobrevivente de uma geração de companheiros de viagens artísticas que já se foram, ligados à arte experimental e à arte nova.”.

Ainda que tenha reunido muitos artistas, o concretismo nasceu do trio Décio, Augusto e Haroldo. E o marco zero do movimento resultou de uma união informal. Em 1948, os três jovens, com idades entre 18 e 22 anos, estudavam na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Formar-se em Direito não era só uma questão de sobrevivência profissional. Também servia de pretexto para o trio se manter ligados e, assim, cultivar uma inclinação comum: ler e escrever poesia.

São Paulo fervilhava. A cidade se tornava uma metrópole e se equipava de instituições culturais: museus, galerias, salas de concerto, teatros, espaços dedicados ao cinema de arte, livrarias e revistas literárias. A informação internacional circulava com maior rapidez, e o trio se nutria da literatura inovadora de poetas como Ezra Pound, e.e. cummings, Vladímir Maiakóvski, T.S. Eliot e de prosadores como James Joyce e o brasileiro Oswald de Andrade (1890-1954), último baluarte do Modernismo de 1922 ainda em atividade .

O trio logo teve de se defrontar com a poesia em moda: a Geração de 45, incentivada por Antonio Candido, professor de Literatura da USP, ensaísta e editor da revista literária Clima. Haroldo, Augusto e Décio não se conformavam com o conservadorismo de seus colegas. Eles enxergavam o poema como campo de revolução da linguagem. Nada ver com os poetas da Geração de 45, que queriam restaurar o poder da metafísica, usando a linguagem como um intermediário dócil. Assim, nutrido nas lições dos autores experimentais e confrontado com o conformismo do ambiente literário doméstico, o trio começou a mostrar seus poemas - e suas garras. A ação parecia quixotesca. Começaram a publicar poemas experimentais. Em 1948, visitaram o velho Oswald, levados pelo poeta e ensaísta tardo-modernista Mário da Silva Brito. Encontraram um homem “rotundo” e bem-humorado, mas doente, pobre e desconsiderado pelo meio literário da moda. A simpatia foi mútua. Oswald lhes deu de presente o único volume de poesia que ainda estava publicado. Os jovens o adotaram como patrono. Foram os concretos que denominaram a poesia de Oswald como “coloquial-irônica”, uma etiqueta difícil de ser desgrudada dele até hoje.

Em 1950, lançaram a revista Noigandres para divulgar poemas experimentais, deles e dos poetas que amavam. O segundo volume da revista, lançado em 1955, defendia a poesia concreta como plataforma de uma revolução formal. O movimento se consolidou na I Exposição Nacional de Arte Concreta, no Museu de Arte Moderna de São Paulo, em dezembro de 1956. Novos poetas se aproximaram. O poeta maranhense Ferreira Gullar, futuro detrator do movimento, exibiu então seus primeiros poemas visuais. A Noigandres rendeu cinco edições, a última em 1967. Foi uma revista influente, apesar das tiragens restritas, de cerca de 500 exemplares por volume.

A Noigandres e a mostra no MAM renderiam quase 60 anos de polêmicas, rompimentos e inimizades. Para defender suas ideias, o trio se viu obrigado a lançar manifestos. O primeiro saiu em dezembro 1956 na revista ad. “Poesia concreta: um manifesto” começa pela seguinte premissa geral: “A poesia concreta começa por assumir uma responsabilidade total perante a linguagem: aceitando o pressuposto do idioma histórico como núcleo indispensável de comunicação, recusa-se a absorver as palavras com meros veículos indiferentes, sem vida sem personalidade sem história - túmulos-tabu com que a convenção insiste em sepultar a ideia”. Pareciam proposições cifradas, mas hoje soam evidentes, principalmente esta: “O poema concreto ou ideograma passa a ser um campo relacional de funções”. Augusto e companheiros lançaram manifestos até 1960. Entre 1962 e 1967, lançaram cinco números da revista Invenção: Revista de Arte e Vanguarda. Depois, divulgaram esses textos. Augusto mostrou-os ao jovem Caetano Veloso – que criaria com o amigo Gilberto Gil o próprio manifesto: a canção-disco “Tropicália”, de 1968.

Augusto acha que a poesia concreta cumpriu o seu ciclo. E lançou modelos de inconformismo que ainda são aplicados, elaborados e ultrapassados.  Na poesia, autores como Frederico Barbosa e Arnaldo Antunes continuam a linhagem da ruptura permanente. E há muita canção brasileira contaminada pelos procedimentos concretistas.

“Quero ser conhecido não como poeta concreto, mas como poeta”, afirma Augusto de Campos. “Embora você não possa negar a corcunda que o tempo lhe deu.”

Uma corcunda ainda capaz de lançar chamas.


Fonte: http://cmais.com.br/arte-e-cultura/letra-nova/o-novo-manifesto-de-augusto-de-campos

quarta-feira, 27 de abril de 2016

FILOSOFIA ATRAI PÚBLICO PARA O GRAJAÚ

Eu fui neste dia. O debate foi muito agregador. Abaixo, algumas anotações e conceitos que falamos sobre:

- Moral: valores normativos (noções de conduta) impostos numa sociedade.

- Ética: está relacionada à práxis (ação), à boa conduta do ser na sociedade onde vive, desde o seu processo cognitivo antes da ação.

- O sistema capitalista trabalhou para que o desejo de consumo se tornasse uma normatividade, o que faz com que rompamos com o nosso senso ético, quando praticamos o consumismo.

- X -

"Já é hora do pôr do sol quando um grupo formado por mais ou menos 30 pessoas se reúne no Grajaú, zona sul, para participar de um Café Filosófico e refletir sobre Páscoa, ética e consumo. O encontro acontece há seis anos, apresenta um tópico diferente para debate a cada mês e faz parte das Rodas de Construção de Conhecimento promovidas pelo Centro de Arte e Promoção Social Grajaú (CAPS).

Em círculo, os participantes têm oportunidade de falar e expor o que pensam sobre o tema do dia. “Aqui é um diálogo aberto”, comenta Luan Siqueira, 23, um dos mediadores. As Rodas atraem pessoas de diferentes idades e regiões. Além do Grajaú, há quem seja do Jacira, Parque Santo Antônio, Guacuri, Campo Limpo, Belém, centro e ABC Paulista.

Maria Vilani, 65, professora e uma das fundadoras do CAPS conta que começaram com apenas três pessoas, sendo elas as próprias integrantes da instituição. Passado o tempo, houve encontro que reuniu mais de 80 pessoas. Mas quantidade não é algo que preocupa Vilani. “Nós não procuramos demanda”, comenta.

O trabalho do CAPS existe desde 1990, mas não era em formato de roda. A primeira atividade com o intuito de compartilhar conhecimento se chamava Especial Poético. Hoje as ações acontecem na Casa de Cultura Palhaço Carequinha, mas no início da década de 1990 o palco das atividades era a casa da própria Maria Vilani, moradora do Grajaú há mais de 40 anos.

O professor e integrante do CAPS Israel dos Santos, 61, comenta que as Rodas são guiadas por voluntários e que uma vantagem de ter conseguido espaço na Casa de Cultura é a localização, pois está próximo da Estação da CPTM e do Terminal Grajaú. Já a atriz Dora Medina, 58, chama a atenção para apropriação das atividades culturais pela população. “Muitas pessoas não sabem o que acontece aqui. Tem gente que reclama que não tem nada para fazer sábado a noite e nós temos Rodas nesse dia”, salienta.

Questionada sobre se os encontros podem ser usados como exemplo para quem pensa que a periferia é um lugar sem conhecimento, Vilani responde que “a ideia de falta de saber é puro preconceito, pois todos nós sabemos algo”. Já o grafiteiro grajuense Mauro Neri, 35, comenta no decorrer de uma Roda de Estudos da Arte que a periferia é uma produtora de cultura.

O Café Filosófico acontece no primeiro sábado de cada mês após o Pingado Filosófico, uma Roda que também tem música e é dedicada a adolescentes. Os sábados seguintes são envolvidos por mais seis Rodas. São elas: Estudos Jurídicos, Poesia, Estudos da Arte, Ciência da Religião, Educação e Estudos Afro-Brasileiros.

Os temas e horários das Rodas são divulgados nas redes sociais do CAPS."

Priscila Pacheco, 28, correspondente do Grajaú
@pricsp
priscilapacheco.mural@gmail.com


quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

A IGREJA QUE TROCOU O CRUCIFIXO PELA ARTE URBANA

Por HÉCTOR LLANOS MARTÍNEZ no jornal El País (3 JAN 2016 - 23:25)

O artista Okuda nos fala de seu trabalho na igreja de Santa Bárbara, no norte da Espanha, agora um 'skatepark'

A igreja de Santa Bárbara foi criada há pouco mais de cem anos em Llanera (em Astúrias, norte da Espanha) para dar trabalho aos funcionários da fábrica de explosivos de Santa Bárbara, que também moravam na região. Depois da Guerra Civil espanhola, a empresa fechou e, a partir dos anos 60, só este templo permaneceu de pé. A vida útil do edifício sofreu, há alguns anos, uma reviravolta inesperada, que agora culmina com o trabalho do artista urbano Okuda.


Foi em 2007 que o coletivo Church Brigade decidiu montar uma rampa de skate neste edifício abandonado. A arte urbana de Okuda, nascido na Cantábria (norte da Espanha), pode ser vista em quase todo o mundo, mas quando descobriu pelo Facebook que esta igreja tinha sido dessacralizada e transformada em um parque de skate, quis registrar sua obra nela.

Sob o nome de Kaos Temple (Templo do caos), transferiu sua habitual explosão de cor a esse edifício religioso e de estilo clássico, que no século XXI perdeu suas credenciais religiosas para se transformar no templo do skate. É a simetria perfeita entre as abóbodas da igreja e as rampas de skate que fez com que Óscar San Miguel, conhecido como Okuda, se apaixonar por este projeto, conta ele por e-mail.

O artista entrou em contato com a Church Brigade através de um amigo comum e lançou uma campanha no site de financiamento coletivo Verkami. Com o dinheiro financiou os custos necessários para esta obra, criada no número bíblico de sete dias.

Havia um interesse especial para que a ideia fosse adiante. “Este projeto tem para mim um valor sentimental que o torna único. É bem do lado da minha terra, a uma hora da casa dos meus pais, enquanto quase todos os meus projetos grandes estão fora da Espanha”, explica.

O estilo peculiar de Okuda, que ele mesmo define como “colorista e geométrico” parece deslocar a linguagem própria dos vitrais da igreja para fora das janelas, colocando-a nos arcos e abóbadas do edifício. Sua intenção, explica, é a de representar sua própria religião, liberdade e estilo de vida.

Foto realizada por Rubén Pomares

Okuda está muito acostumado a obras de grande formato como a deste local, já que cria cerca de dois murais por mês de pelo menos três andares de altura. “Me sinto muito à vontade adaptando-me a suportes tão clássicos quanto uma igreja. Esse contraste entre pintura contemporânea multicolorida e a arquitetura clássica e crua da pedra é o que mais me impressionou e emocionou neste projeto”, diz.

Ainda que pareça não há mais o que conquistar para a arte urbana deste espanhol, ele ainda tem projetos pendentes. “Faz tempo que gostaria de dirigir videoclipes ou de colaborar com algum arquiteto”, confessa. Este ano participará da Art Beijing, em Pequim, e o único continente que resiste a ele até agora é a Austrália, para onde espera viajar no próximo ano. As imagens a seguir reúnem alguns dos trabalhos favoritos desse cantábrico.

Estação de metro Paco de Luzia em Madri (2015)

Gorki Park (Moscou)

Festival Bonaroo (Manchester) 2013