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quarta-feira, 5 de outubro de 2016

terça-feira, 4 de outubro de 2016

A EX-TESTEMUNHA DE JEOVÁ QUE VIROU VOZ DO FUNK TRANSGÊNERO

Conheci o som da MC Linn no evento Periferia Trans, que aconteceu no Grajaú há um tempo atrás. Além dela, também participou o Rico Dalasam. Juntas, elas são algumas das pessoas que levantam temas muito importantes sobre questões do movimento LGBT nas letras de suas músicas.

* * *

MC Linn da Quebrada cresceu no interior paulista em uma família simples e religiosa. A mãe, alagoana, era empregada doméstica, e ela cresceu entre Votuporanga e São José do Rio Preto, até retornar à zona de leste de São Paulo e se tornar uma das novas vozes de um movimento crescente na música brasileira: a dos artistas que colocam em pauta a questão do gênero.

Transexual de 25 anos, MC Linn não fala só sobre os direitos TLGB (Transexuais, Lésbicas, Gays e Bissexuais), mas trata também do direito de ser afeminada, ou de "enviadecer", como ela coloca em uma das suas músicas com conteúdo bem explícito e cujos videoclipes já têm mais de cem mil visualizações no YouTube.

"Passei uma vida inteira ouvindo que 'ser viado não é uma coisa legal', que ser travesti é perigoso e vai trazer problemas. E eu não estou dizendo que é fácil, mas que é possível e lindo ser transviada - é uma possibilidade feliz.

"Eu venho de uma criação religiosa muito rígida, eu era testemunha de Jeová, então tive o corpo muito disciplinado, domesticado pela Igreja e pela doutrinação, que me privava dos meus desejos. Era como se ele não me pertencesse. Até eu tomar o bastião de liberdade há alguns anos e me assumir", conta.

Ela chegou a fazer alguns raps, mas foi no funk que encontrou a melhor forma de se expressar.

"Eu vivi na periferia com minha mãe, e lá a música comunica - música como o funk, o samba, de preto e preta, de linguagem direta, que movimenta o corpo. Também ali tive contato com as músicas TLGB, músicas de bicha, que estão nas baladas. E percebi que esse tipo de música me movimentava mas estava somente relacionada ao universo machista. E por acreditar que a música também é um espaço a ser ocupado e contaminado, por que não eu fazer algo que eu quisesse ouvir? Foi aí que eu decidi começar meu trabalho com as minhas histórias."


A explosão do gênero na música

Assim como Linn, outros artistas como Liniker, As Bahias e a Cozinha Mineira, Jaloo e Johnny Hooker também vêm abordando as questões de gênero - nem sempre por discursos explícitos nas letras, mas pela exposição de mídia e por se colocarem como são - trans, não binários, travestis - ao público.

Linn atribui essa explosão de artistas que tratam de alguma forma da questão de gênero às redes criadas pela internet e reconhece que "há interesse em que isso se torne um produto de alguma forma".

"Estamos num momento de tomada dos meios de produção, a internet facilitou as coisas. A diferença é que hoje nós conseguimos ser vistas: consigo ver que tem trans lá no Nordeste fazendo coisas maravilhosas de que eu não iria saber antes. Eu mesma, bicha da favela, consigo ser vista e conhecida pelo meu trabalho. Além disso, acho que há um interesse mercadológico nisso tudo."


'Terrorista de gênero'

Ativista, MC Linn colaborou com a formação da ONG ATRAVESSA (Associação de Travestis de Santo André) e se considera "bicha, trans, preta e periférica. Nem ator, nem atriz, atroz. Performer e terrorista de gênero".

Questionada pela reportagem sobre a necessidade de ser uma "terrorista" nesse sentido, ela responde com outra pergunta: "Será que não fomos por tempo demais inofensivas? Não está na hora de a gente passar a dar medo, a assustar? E também a se assustar, se pôr em risco? Por isso me coloco nessa posição: eu quero duvidar da imagem consolidada há tanto tempo no espelho. Eu quebro esse espelho para que possa me reinventar. É preciso ter muita coragem para sair como eu saio na rua, porque as pessoas não matam só com faca ou com balas. O discurso também mata. Os olhares pelas ruas também nos matam e nos oprimem, e é preciso que todos os dias eu mesma me encoraje para poder ser".

E trabalho dela, além de autoral tem também um viés político de "empoderamento".

"Tudo que a gente faz é politica. A roupa que eu escolho para sair na rua é política, a escolha de sair maquiada ou não também. Cada palavra que eu digo numa musica ou numa conversa informal é política, tem efeitos e diz respeito a uma atitude, a um posicionamento."

MC Linn aposta no efeito que a obra dela pode ter - para si mesma, para outras trans e para o mercado da música no Brasil.

"Apesar da facilidade maior de produzir, não é fácil entrar em alguns espaços. Para algumas pessoas como eu, às vezes não é fácil nem sair de casa, é um ato de coragem tomar o próprio corpo. Então eu espero que minha música consiga ser ouvida e com isso, outras pessoas possam ter a coragem de ser, de existir, e a gente possa estabelecer esses vínculos para sobreviver", diz.

"Eu não sou a rainha do empoderamento, uma diva, nada disso. Eu sou só uma bichinha da favela, mais uma, como qualquer outra - e qualquer outra também pode produzir."


FESTIVAL FAÍSCA @ ALFENAS (MG) - 2016

Com grande alegria, recebi o convite da querida Janaína Moitinho para participar do Festival FAÍSCA, em Alfenas, Minas Gerais. Este que reúne as mais diversas vertentes artísticas, como música, pintura, teatro, poesia, literatura etc., e onde tive a oportunidade de divulgar um pouco do meu trabalho nos dois dias que estive por lá.

Daqui de São Paulo, juntamente com ela e o poeta Jefferson Santana, seguimos de carro com a Adriana, que também nos hospedou em sua casa, onde tive o prazer de conhecer os outros integrantes da família Medeiros.

Durante este final de semana, conheci novos lugares, conversei com várias pessoas, fiz poesia, criei Aluminions, comi açaí, enfim, coisa boa não faltou. Pelo convívio e troca de ideias destaco: o mano Filite, que fez um live painting; o Facção Caipira, com sua mistura de blues e hardcore; e o Fino Du Rap, diretamente de São Paulo, que foi para fechar o (memorável) evento na noite de domingo.

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Registros lindos! 
E que foram feitos de forma colaborativa do Festival FAISCA 2016 em Alfenas.
"O que a(s)cende não cessa" foi o tema desse ano que direcionou a construção do festival por mais 200 mãos e muito amor! 

Cobertura completa em breve no Flickr do FAISCA: https://goo.gl/JmnDoY.
Fiquem atentos! :)

























segunda-feira, 3 de outubro de 2016

OLHAR TVT - VOZES DA PERIFERIA

O Olhar TVT - Vozes da Periferia apresenta o sensível trabalho de Daniel Alexandrino e Edilene Santos, autores do documentário Grajaú em Foco. Já experientes no percurso das artes periféricas, pois são coordenadores do consagrado Sarau do Grajaú, Daniel (diretor) e Edilene (roteirista) falam de suas escolhas para a produção do documentário. Moradores de uma região superpopulosa, repleta de talentos e solidariedade, a dupla traz no documentário nove coletivos ligados às artes e lutas sociais focadas na educação, ecologia, desigualdades de raça e de gênero. Trechos generosos do documentário ilustram suas escolhas. Ao contrário do que a grande mídia apresenta, a periferia está repleta de boas notícias.


EVENTO: FESTIVAL PANGEIA VAI LEVAR CULTURA DE MIGRANTES DA AMÉRICA DO SUL PARA A PERIFERIA DE SÃO PAULO

Por Rodrigo Borges Delfim

O bairro do Grajaú, na zona sul de São Paulo, vai virar uma síntese cultural da América do Sul. Entre os dias 18 e 30 de outubro acontece na região a primeira edição do Festival Cultural Pangeia, que contará com atividades de grupos culturais e artistas brasileiros e imigrantes de países sul-americanos que vivem na capital paulista.

As atividades acontecem no Centro Cultural Grajaú, localizado no Parque América – veja mais no serviço ao final do texto. O projeto, que conta com apoio do Programa VAI, foi idealizado pela produtora cultural Pauliana Reis, moradora do Grajaú, depois de experiências pessoais que teve pela América do Sul. Também fazem parte do Pangeia mais três pessoas: as brasileiras Renata Rodrigues, Thamara Lage, Priscila Magalhães e a boliviana Monica Rodriguez, que também integra a ONG Presença de América Latina, parceira cultural do projeto.

O nome Pangeia é uma referência à primeira formação do Planeta Terra, onde não havia divisão dos continentes como conhecemos hoje. É também uma forma de pregar a superação de fronteiras, de barreiras que desagregam.

Em entrevista ao MigraMundo, Pauliana fala um pouco mais sobre a iniciativa e de como ele vem se desenvolvendo. A programação está disponível na página do Pangeia no Facebook.


MigraMundo: De onde surgiu a ideia do festival e por que o nome Pangeia para a ação?

Pauliana Reis: Estudei espanhol por um bom tempo, isso já faz muito tempo, mas ficou na minha memória, me instigou a pesquisar e querer conhecer mais dos países da América Latina, principalmente aqueles que tinham como língua principal o espanhol. Assim, quando consegui juntar dinheiro e me preparar, fiz uma viagem para a Argentina e Chile onde fiquei ainda mais encantada com a cultura desses países, e me fez querer pesquisar mais. Observando e tendo contato com imigrantes desses países aqui no Brasil, senti vontade de externar isso e falar um pouco mais sobre as influências de vários países aqui na nossa cultura.

Assim surgiu a primeira ideia de fazer um evento cultural com essa temática. No coletivo os integrantes também partilhavam da mesma vontade. Inicialmente não tínhamos imigrantes no coletivo, agora com a idealização do projeto temos na produção e na equipe a querida Mônica Rodriguez, ela é boliviana e atua como articuladora de várias ações culturais aqui no Brasil. Isso foi imprescindível para dar vida as ideias iniciais do projeto e promover o evento que tanto queríamos fazer, o Festival Cultural Pangeia.

O nome Pangeia se refere a primeira formação da terra, onde não havia essa divisão dos continentes como conhecemos hoje. A proposta de reunir as culturas dos povos de diferentes nações está ligada a essa ideia de junção, assim, pensando na cultura do nosso pais, o Brasil, podemos perceber que somos essa junção, essa mistura de culturas, essa composição que vem de varias nações. Assim, idealizando um lugar onde essa junção pode acontecer, principalmente culturalmente, pensamos em propor a realização desse festival.


Quem são as pessoas envolvidas na organização do festival?

No coletivo temos os integrantes: Pauliana Reis – Diretora do Festival; Mônica Rodriguez – Produtora Geral; Thamara Lage – Produtora e Curadora da exposição; Renata Rodrigues – Produtora; e Priscila Magalhães – Assessoria de Imprensa e Produtora. Para os dias de festival teremos um apoio de uma equipe de mais 8 produtores que irão atuar na linha de frente da produção e auxiliando em todas as ações práticas do festival.


Vocês têm uma estimativa do público esperado para o festival?

Não temos uma estimativa precisa para o festival, mas posso arriscar dizer que pretendemos atingir um publico de no minimo 2 mil pessoas transitando nos dias de festival.


Vocês têm algum projeto ou iniciativa que serviu de inspiração?

Temos varias inspirações e com certeza deve haver alguma ligação que nos direcionou nas tomadas de decisões para realização do Festival Cultural Pangeia.


Vocês já desenvolveram algum projeto anterior relacionado com migrantes? Se sim, como foi?

Ainda não desenvolvemos projetos relacionados a imigrantes, alias, esse é o primeiro projeto do nosso jovem coletivo.


O Festival Pangeia conta com recursos do Programa VAI, da Secretaria de Cultura da Prefeitura de São Paulo, que é procurado por muitos coletivos culturais com poucos recursos. Como foi esse processo em relação ao Pangeia? Vocês contam com outras fontes de recursos para organizar o evento?

Somos exatamente um desses coletivos, temos poucos recursos. Contamos somente com patrocínio do VAI. Como apoio cultural contamos com o PAL – Presença da América Latina que tem dado muito suporte relacionado a organização, contatos, informações que auxiliam muito para a realização do festival.


Por que o recorte pela cultura e pelos imigrantes da América do Sul?

Projetos culturais com certeza são os projetos que gostamos e sempre que podemos estamos auxiliando e promovendo. A ideia de focar nessa edição na América do Sul surgiu a partir de alguns anseios e ideias (VIDE: resposta da primeira pergunta). Um recorte importante é levar a cultura tradicional desses países, inclusive a cultura popular brasileira para a periferia, para o Grajaú, pois não temos acesso a festas, festivais e eventos com esse recorte em nossa região.


Já há algumas atrações culturais confirmadas no Pangeia, como os conjuntos folclóricos QuinchamaLi e Alma Guarani, entre outros artistas. Como tem sido o contato com eles e a reação em relação à proposta do festival?

Tem sido incrível! Visitamos e pudemos conhecer de perto quase todas as atrações que fará parte da nossa programação. Os grupos citados, QuincamaLi e Alma Guarani, foram em especial muito atenciosos e com certeza será de grande importância a participação deles no nosso festival. Além de assistir diversas apresentações em festas e eventos voltados para a mesma temática, tivemos apoio de muitas pessoas queridas que nos auxiliaram nessa curadoria.


As atividades vão acontecer no bairro do Grajaú, aqui em São Paulo. Já há algum tipo de divulgação na região? Como tem sido o retorno da comunidade local sobre o projeto?

O Grajaú é o lugar onde a maioria dos integrantes do coletivo vivem. Temos amigos, raízes, histórias nesse local, já fizemos uma boa divulgação e ainda continuamos fazendo, principalmente em parceria com o local que vai nos receber que é o Centro Cultural Grajaú, bem localizado, em um lugar que é ponto de encontro no Grajaú. A comunidade tem sido muito acolhedora, estamos em casa, então fica mais fácil desenvolver qualquer tipo de divulgação por aqui.


Que tipo de legado o Festival Pangeia pretende deixar para o público que acompanhar o evento?

Pretendemos deixar informações, troca de experiências, vivências dentro desse universo, da troca com brasileiros e imigrantes, deixando cada vez mais claro que somos todos parte de uma mesma cultura, miscigenada, composta por pessoas de diversas nacionalidades, fazendo esse nosso Brasil ser ainda mais lindo! Pretendemos deixar a mensagem primordial que direciona a ideia do projeto, que é o respeito, devemos nos unir assim como sugere o nome Pangeia, ser um só e deixar as diferenças de lado.


Depois da edição sul-americana, vocês cogitam organizar novas edições?

Sim, essa edição, como se tratava de um primeiro momento optamos por focar somente na América do Sul, mas a proposta é realizar edições focadas nos continentes.


Festival Cultural Pangeia – América do Sul
Data: de 18 a 31 de outubro – início no dia 18, a partir das 18h
Local: Centro Cultural Grajaú – Rua Professor Oscar Barreto Filho, 252 – Grajaú, São Paulo (SP)
Entrada: grátis


quinta-feira, 27 de março de 2014

INTERVENÇÃO

A noção de intervenção é empregada, no campo das artes, com múltiplos sentidos, não havendo uma única definição para o termo.

Na área de urbanismo e arquitetura, as intervenções urbanas designam programas e projetos que visam à reestruturação, requalificação ou reabilitação funcional e simbólica de regiões ou edificações de uma cidade. A intervenção se dá, assim, sobre uma realidade preexistente, que possui características e configurações específicas, com o objetivo de retomar, alterar ou acrescentar novos usos, funções e propriedades e promover a apropriação da população daquele determinado espaço. Algumas intervenções urbanísticas são planejadas com o intuito de restauração ou requalificação de espaços públicos, como as conhecidas revitalizações de centros históricos, outras objetivam transformações nas dinâmicas socioespaciais, redefinindo funções e projetando novos atributos.


Como prática artística no espaço urbano, a intervenção pode ser considerada uma vertente da arte urbana, ambiental ou pública, direcionada a interferir sobre uma dada situação para promover alguma transformação ou reação, no plano físico, intelectual ou sensorial. Trabalhos de intervenção podem ocorrer em áreas externas ou no interior de edifícios.

O termo intervenção é também usado para qualificar o procedimento de promover interferências em imagens, fotografias, objetos ou obras de arte preexistentes. Intervenção, nesse caso, possui um sentido semelhante à apropriação, contribuição, manipulação, interferência. Colagens, assemblages, montagens, fotografias e desenhos são trabalhos que freqüentemente se valem desse tipo de procedimento.

Os projetos de intervenção são um dos caminhos explorados por um universo bastante diverso de artistas interessados em se aproximar da vida cotidiana, se inserir no tecido social, abrir novas frentes de atuação e visibilidade para os trabalhos de arte fora dos espaços consagrados de atuação, torná-la mais acessível ao público e desestabilizadora e menos mercantilizada e musealizada. Tal tendência, marcante da arte contemporânea, é geradora de uma multiplicidade de experimentações artísticas, pesquisas e propostas conceituais baseadas em questões ligadas às linguagens artísticas, ao circuito da arte ou ao contexto sociopolítico.

As linguagens, técnicas e táticas empregadas nesses trabalhos são bastante heterogêneas. Intervenções podem ser ações efêmeras, eventos participativos em espaços abertos, trabalhos que convidam à interação com o público; inserções na paisagem; ocupações de edifícios ou áreas livres, envolvendo oficinas e debates; performances; instalações; vídeos; trabalhos que se valem de estratégias do campo das artes cênicas para criar uma determinada cena, situação ou relação entre as pessoas, ou da comunicação e da publicidade, como panfletos, cartazes, adesivos (stickers), lambe-lambes; interferências em placas de sinalização de trânsito ou materiais publicitários, diretamente, ou apropriação desses códigos para criação de uma outra linguagem; manifestações de arte de rua, como o graffiti.


Diferentes trabalhos de arte podem ser qualificados como intervenção, não havendo, portanto, uma categorização única ou fronteiras rígidas que a separem da instalação, land art, site specific, performance, arte postal, arte xerox, mas sim uma confluência entre as tendências.Tomando o significado do vocábulo intervenção - como ação sobre algo, que acarreta reações diretas ou indiretas; ato de se envolver em uma situação, para evitar ou incentivar que algo aconteça; alteração do estabelecido; interação, intermediação, interferência, incisão, contribuição - podemos destacar alguns aspectos que singularizam essa forma de arte: a relação entre a obra e o meio (espaço e público), a ação imediata sobre determinado tempo e lugar, o intuito de provocar reações e transformações no comportamento, concepções e percepções dos indivíduos, um componente de subversão ou questionamento das normas sociais, o engajamento com proposições políticas ou problemas sociais, a interrupção do curso normal das coisas através da surpresa, do humor, da ironia, da crítica, do estranhamento. A reversibilidade de sua implantação na paisagem, seu caráter efêmero, é outra características das intervenções.

Algumas referências teóricas importantes para essa forma de expressão artística são o movimento situacionista e a fenomenologia, e, entre os movimentos estéticos, o dadaísmo, o minimalismo, a arte povera e a arte conceitual. No plano internacional, entre as diversas práticas artísticas que podem ser identificadas com intervenções estão trabalhos de artistas bastante diferentes, como Richard Long (1945), Christo (1935), Richard Serra (1936) e Gordon Matta-Clark (1943-1978). No contexto brasileiro, alguns trabalhos de artistas como Flávio de Carvalho (1899-1973), Hélio Oiticica (1937-1980), Lygia Clark (1920-1988), Cildo Meireles (1948), Artur Barrio (1945), Paulo Bruscky (1949), grupo 3nós3, Dante Velloni (1954), podem ser considerados precursores das intervenções.


Como prática artística, as intervenções se consolidam no Brasil nos anos 1970, com propostas de grupos de artistas como o 3nós3, Viajou sem passaporte e Manga Rosa, que tomaram a cidade como campo de investigação e procuraram expandir o circuito de arte e a noção de obra de arte. Tais ações consistiam geralmente na introdução de elementos estranhos em situações cotidianas, com o objetivo de alterar a ordem habitual e buscar uma comunicação mais direta com o público.

No decorrer dos anos 1990 despontam intervenções orientadas por novas estratégias, trabalhos que mantêm em comum com os realizados em períodos anteriores a procura por alternativas aos circuitos oficiais e em atingir diretamente o público, mas que possuem um caráter marcadamente engajado, voltado a interferir numa situação dada para alterar seu resultado, numa tendência geral conhecida como artivismo. Tais projetos artísticos, geralmente empreendidos por coletivos de artistas existentes nas principais capitais do país, com freqüência se ligam a movimentos sociais ou comunitários, a iniciativas de organizações governamentais ou causas internacionais, como a diminuição da poluição e a crítica à globalização e ao neoliberalismo.

Diversas intervenções artísticas se concretizam sem licença para serem realizadas, por vezes ilicitamente. Tornam-se cada vez mais comuns as intervenções desenvolvidas com a aprovação institucional ou como encomendas especialmente projetadas para um determinado local, financiadas por uma instituição ou instância pública. Estas geralmente ocorrem no interior de museus, centros culturais ou galerias, espaço no qual o artista introduz elementos e materiais imprevistos, ou dispõe objetos corriqueiros, num arranjo inusitado, desvirtuando sua funcionalidade e provocando um estranhamento nos visitantes.


segunda-feira, 24 de março de 2014

A POESIA MARGINAL

A poesia marginal é uma prática poética marcada pelo desenvolvimento artesanal, pela atitude faça-você-mesmo, e que foi criada por pessoas que queriam se expressar livremente em época de ditadura, buscando caminhos alternativos para distribuir poesia e revelar novas vozes poéticas.

É um movimento cultural fundado nos anos 70, cujos nomes mais marcantes desta época foram Ana Cristina César, Paulo Leminski, Ricardo Carvalho Duarte (Chacal), Francisco Alvim e Cacaso. As poesias eram distribuídas em livretos artesanais mimeografados e grampeados, ou somente dobrados.

Poetas e poetisas imprimiam no alcool do mimeógrafo as suas poesias originais, instigantes, carregados de coloquiedade, objetividade e subversão.

A poetisa Ana Cristina César além de escrever poemas também redigia para jornais, se suicidou aos 31 anos, em 1981. Cacaso faleceu em 1987, aos 43 anos, após uma parada cardíaca. Paulo Leminski, que adorava experimentar a linguagem dos poetas concretos, faleceu em 1989.

É importante enfatizar que não foi um movimento poético de características padronizadas, foi um momento de libertação dos termos e expressão livre num momento de repressão política nos fins da década de 60. A poesia foi levada para as ruas, praças e bares como alternativa de publicação, alternativa que estivesse longe do alvo da censura. Tudo era considerado suporte para a expressão e impressão das poesias, fosse um folheto, uma camiseta, xerox, apresentações em calçadas, etc.