"Projeto acadêmico voltado à linha editorial da editora Cosac Naify. A proposta visa a criação de uma nova antologia que reuniria o melhor da poesia de Augusto de Campos em uma edição especial com pop-ups inéditos, o manifesto concretista, depoimentos do autor e mais um CD com suas melhores composições musicais."
Mostrando postagens com marcador augusto de campos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador augusto de campos. Mostrar todas as postagens
quinta-feira, 12 de maio de 2016
segunda-feira, 9 de maio de 2016
MAIOR MOSTRA JÁ REALIZADA DE AUGUSTO DE CAMPOS REPASSA 65 ANOS DE CARREIRA DO CONCRETISTA
Em entrevista à ARTE!Brasileiros poeta fala sobre a exposição e sobre o momento político do país: “O que o Brasil está passando é obra em regresso”
Marcos Grinspum Ferraz
06/05/2016 9:00, atualizada às 06/05/2016 11:54
Augusto de Campos durante entrevista no SESC Pompeia. Foto: Marcos Grinspum Ferraz
“O fato é que estes poemas caberiam melhor talvez numa exposição, propostos como quadros, que num livro”, escreveu certa vez o concretista Augusto de Campos, hoje aos 85 anos. Se caberiam melhor ou não, o certo é que a obra “verbovicovisual” – termo que se refere às dimensões semânticas, sonoras e visuais da palavra – do poeta paulistano cabe não só em livros e quadros, mas também em vídeos, colagens, esculturas, músicas, instalações, holografias e projeções. Decorre desta constatação a montagem da exposição REVER, em cartaz no SESC Pompeia, maior mostra dedicada à obra de Augusto de Campos já realizada.
“Eu acho que essas coisas já estavam potencialmente dentro da poesia concreta”, diz o autor sobre as várias plataformas utilizadas na mostra, inclusive as mais tecnológicas. “Claro que você não podia prever a que ponto chegaríamos, mas havia, virtualmente, pressupostos”, continua Augusto em entrevista a ARTE!Brasileiros. Nessa linha, como explica o curador da mostra, Daniel Rangel, o poema Desgrafite se tornou um grafite, Espelho foi impresso em cima de um grande espelho e assim por diante. “Muitos dos suportes que a gente escolheu para expor já estavam, entre aspas, nos livros”, afirma Rangel, que concebeu a exposição em diálogo constante com o poeta. Os livros, no caso, são os quatro lançados por Augusto ao longo da vida – Viva Vaia (1979), Despoesia (1994), Não (2003) e Outro (2015) – que, junto a outras peças e a manuscritos, são as bases da exposição.
Alguns dos suportes presentes também já haviam sido utilizados pelo autor ao longo se sua carreira de 65 anos, iniciada pouco antes de fundar ao lado de Haroldo de Campos e Décio Pignatari o grupo Noigandres, em 1952. A célebre poesia Viva Vaia, por exemplo, escrita em 1972 em homenagem a Caetano Veloso e exposta como uma grande escultura de aço em REVER, já havia sido apresentada neste formato outras vezes, mesmo que em reproduções menores. Vídeos, hologramas e animações, por exemplo, também não são novidades para o poeta, que sempre buscou acompanhar as tecnologias de cada época. “Até os vídeos em 3D, realizados pela primeira vez agora, já pediam o 3D antes mesmo dele existir”, diz Rangel. “Isso é uma característica do trabalho do Augusto, que sempre foi um vanguardista”. Se não fosse pela questão geracional, talvez o próprio autor estivesse produzindo com tecnologia de ponta em casa: “Comecei a trabalhar com meu próprio computador doméstico só em 1992. Então eu já tinha 60 anos, quando o ideal era ter 20”, brinca.
Escultura para “Viva Vaia” na mostra. Foto: Divulgação
Diante da diversidade de plataformas e linguagens utilizadas, Rangel afirma que a mostra tem como objetivo, além de apresentar uma grande retrospectiva (também prospectiva, segundo ele) do trabalho do autor, corrigir uma falha histórica que permanece ainda hoje. “Em qualquer biografia sobre Augusto, ele é considerado poeta, tradutor, crítico e ensaísta, mas nunca artista. E um dos objetivos desta exposição é corrigir um pouco esse erro, uma vez que ele é também um grande artista”. Perguntado sobre o assunto, Augusto relembra a célebre Exposição Nacional de Arte Concreta, em 1956, que lançou as bases do concretismo no País, reunindo poetas e artistas plásticos. “Então não esse, da arte, não me é um ambiente estranho, apesar de não ser tão frequente em uma exposição a presença de poetas”, diz ele. Mas Augusto também é um artista, não? “Eu suponho que sim”, responde o próprio, rindo.
A questão da falta de reconhecimento de Augusto enquanto artista é, na verdade, parte de uma possível falta maior, de reconhecimento da própria poesia concreta. Em entrevista, certa vez, o autor afirmou que os poetas concretos se defrontaram com um muro de negação diante de minoritários aplausos. “Isso mudou muito, hoje a poesia concreta está até em livros didáticos. Na crítica ainda há quem seja muito contra, mas isso é natural, até importante. Porque significa que você incomoda, e a arte tem que provocar, né?”. O curador é ainda mais contundente em sua afirmação: “Eu acho que a poesia concreta ainda está numa fronteira onde ela nem é tão reconhecida no campo da literatura, nem no campo das artes visuais. Então ela vive meio numa fronteira, numa espécie de limbo crítico”. Mas assim como o poeta, Rangel reconhece uma melhora no panorama. “Agora começa a cair mais a ficha das pessoas em relação ao Augusto, mas ele passou muito tempo numa espécie de ostracismo. Tanto é que uma exposição deste porte só acontece agora. Precisou chegar aos 85 anos pra ganhar uma exposição que ele pode realmente chamar de dele”.
Enquanto celebra os 65 anos de carreira e a realização de sua maior exposição, Augusto lamenta profundamente a situação do país e o possível afastamento da presidenta Dilma Rousseff. Autor do poema-colagem Psiu (1966) em plena ditadura militar e de outras obras relacionadas à vida política brasileira ao longo das décadas, Augusto não apresenta em REVER nenhum trabalho ligado diretamente ao conturbado momento atual, até mesmo porque a mostra foi planejada muito antes de ter inicio o processo de impeachment. “Mas, quem sabe, depois do circo grotesco que nós fomos obrigados a assistir pela televisão, proporcionado pela Câmara dos Deputados, a poesia possa trazer um pouco de sensibilidade, um pouco de consciência. Quem sabe pode dar um pouco de luz e de esperança para esse momento tão conturbado e triste”.
Relembrando que é também advogado e foi procurador do Estado durante 40 anos, Augusto argumenta que a destituição da presidenta não tem base jurídica sólida. Mas com a veia poética que fala mais alto, ele conclui trabalhando as palavras: “Fica até um paradoxo, porque o que se está vendo aqui, na exposição, é obra em progresso, e o que o Brasil está passando é obra em regresso”.
A exposição “Rever_Augusto de Campos”. Foto: Marcos Grinspum Ferraz
Serviço – REVER_Augusto de Campos
Até 31 de julho
Sesc Pompeia – Rua Clélia, 73
11 3871-7700
Entrada gratuita
terça-feira, 3 de maio de 2016
O NOVO MANIFESTO DE AUGUSTO DE CAMPOS
O poeta, crítico e tradutor diz que a poesia e a vida musical retrocederam: “O Brasil está cem anos atrasado”
Luís Antônio Giron, do cmais+ Arte & Cultura
02/10/14 16:37 - Atualizado em 02/10/14 16:51
O tempo passou muito rápido, segundo o poeta Augusto de Campos. Talvez por isso ele continue a fazer aos 83 anos as mesmas coisas que faz desde a adolescência: traduzir poetas experimentais, discutir música contemporânea e montar poemas visuais e interativos. Também é a razão de ele analisar a cultura contemporânea de uma forma crítica e incisiva, que lembra os antigos manifestos que ele lançou nos anos 1950. No início da carreira, fundou com o irmão Haroldo de Campos (1929-2003) e o amigo Décio Pignatari (1927-2012) o movimento concreto, que preconizava a explosão do código verbal e a aproximação da poesia às artes visuais. Da premissa nasceram os “poemas ideogramas” que alteraram a forma de fazer poesia – e colecionaram inimigos estéticos definitivos. A inveja parece eterna, pelo menos no que diz respeito aos opositores dos poetas concretos em particular e da arte concreta em geral. Até hoje a obra deles provoca reações indignadas, numa prova de que a inovação incomoda e a força da arte concreta ainda persiste, mesmo tendo sido ultrapassada, talvez, por ulteriores vertentes experimentais. Mesmo assim, a expressão “poeta concreto” soa como um palavrão para muita gente.
Augusto pode ser descrito como um oitentão jovial, vigoroso, bem-humorado, coloquial-irônico, dotado de uma capacidade de argumentação e uma memória extraordinárias. Advogado aposentado (diríamos ‘aposentado e perigoso”, como no filme estrelado por John Malkovich), casado e avô, ele continua a morar no bairro das Perdizes, onde sempre morou. O apartamento é decorado com telas com artistas de vanguarda. Óleos de Hermelindo Fiaminghi (1920-2004) figuram lado a lado de cartazes com poemas concretos criados por Augusto, que não se diferenciam muito das telas. Sua biblioteca é tão pequena como abarrotada de livros e CDs – e, mesmo assim, muito confortável.
O poeta não se deixa enganar pela zona de conforto. Cada fala sua assume o aspecto de manifesto. Não estampa mais ensaios e seus poemas (que entregava já diagramados) em jornais, mas na internet. Acaba de publicar no site Zunai um conjunto de traduções de poemas juvenis do russo Vladímir Maiakóvski, poeta ao qual retorna de tempos em tempos. Seu maior best-seller Pagu: vida-obra, lançado em 1983 pela editora Brasiliense, biografia da escritora modernista e ativista política Patrícia Galvão (1902-1962), ganha a quarta edição pela companhia das Letras, com revisões e um projeto gráfico mais sofisticado. “Não tem muita coisa nova”, afirma ao cmais. “ Mas eu corrigi erros, informações. Aumentei bibliografia, incluí um texto, acrescentei uma entrevista muito boa que eu fiz com o Mário Sérgio Conti. A edição vai ter maior qualidade em ilustrações. Bem melhor que a parte iconográfica do livro pela editora Brasiliense que teve três edições e foi bem, diferente do que aconteceu com outros livros nossos.”
A visita aconteceu em 15 de setembro. Augusto nos recebeu – o poeta Fábio Malavoglia, apresentador do programa Rádio Metrópolis da rádio Cultura FM e este repórter – com gentileza e simpatia (ouça trecho da entrevista abaixo). “Estou com tempo agora”, diz. “Eu acabei de terminar meu livro de ensaios sobre música.” Além disso, está com dois livros a ser publicados pela editora Perspectiva, sem data prevista de lançamento: um volume de poemas escritos nos últimos dez anos cujo título não revela e Música de Invenção 2, reunião de ensaios sobre música contemporânea. “Sempre produzi pouca poesia”, diz. Ele contou que nos últimos 30 anos, tem composto poemas “verbo-voco-visuais”, como diz, no computador. Não está otimista com a poesia jovem brasileira, mergulhada, afirma, no pós-modernismo, uma máscara para praticar arte pré-moderna. Segundo ele, os poetas deveriam se atualizar aprender a trabalhar no meio digital. Ele não quer se meter na poesia dos novos. “Poetas velhos não têm que se meter com poetas novos”, diz (leia a íntegra da entrevista).
Sua preocupação hoje é com aquilo que ele chama de um escândalo: o fato de a música erudita contemporânea ter sido alijada do público brasileiro. “Eu considero uma das maiores tragédias culturais brasileiras o fato de o público não se ter praticamente acesso ao que aconteceu na música erudita moderna, na chamada música contemporânea, num gap de cem anos. O Brasil está cem anos atrasado.” E reforça: “Um século de atraso! Como se o público brasileiro não tivesse inteligência e sensibilidade para ouvir música de alto repertório.” Indigna-se porque o século XX acabou e quase ninguém conhece a música que foi feita no período. Como se não bastasse, o século XX já tem 14 anos e poucos conhecem os compositores atuais. Augusto queria que seus textos ajudassem a derrubar o “star system” da música clássica, que entronizou o repertório do Romantismo em detrimento da música criativa e atual. Sobre a música popular, diz que já fez o suficiente por ela. “Hoje a música popular é vencedora. Preciso ajudar a erudita contemporânea.” Mas avisa: “Não sou historiador de música nem musicólogo no sentido mais estrito da palavra. Faço uma crítica stop-gap, tapa-buraco. Eu vou onde acho que está faltando e as pessoas desconhecem”.
Augusto continua a seguir o breviário da revolução das artes e o rompimento com a tradição. Ele adquiriu a crença na juventude, quando se apaixonou pelas vanguardas artísticas do início do século XX impulsionadas pela revolução da tecnologia. Foi assim que participou da fundação do movimento concreto em 1955. A onda começou pela poesia, e se expandiu para as artes plásticas e a música. Foi um dos movimentos artísticos mais influentes dos anos 1960. Colocou em xeque a literatura baseada mais no conteúdo que na forma. Educou o público para a arte geométrica. Como conceito de “linha evolutiva da música popular brasileira”, ajudou a consagrar a Bossa Nova e a Tropicália. Augusto discorre sobre as várias vertentes do concretismo como da primeira vez em que foi interrogado sobre o tema. Um tema ainda polêmico passados mais de 60 anos do início do movimento.
A paixão pela controvérsia parece lhe dar força para continuar a debater, analisar e manter a racionalidade, além de possuir uma inquebrantável teimosia. “Sou um sobrevivente”, afirma. “Sobrevivente de uma geração de companheiros de viagens artísticas que já se foram, ligados à arte experimental e à arte nova.”.
Ainda que tenha reunido muitos artistas, o concretismo nasceu do trio Décio, Augusto e Haroldo. E o marco zero do movimento resultou de uma união informal. Em 1948, os três jovens, com idades entre 18 e 22 anos, estudavam na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Formar-se em Direito não era só uma questão de sobrevivência profissional. Também servia de pretexto para o trio se manter ligados e, assim, cultivar uma inclinação comum: ler e escrever poesia.
São Paulo fervilhava. A cidade se tornava uma metrópole e se equipava de instituições culturais: museus, galerias, salas de concerto, teatros, espaços dedicados ao cinema de arte, livrarias e revistas literárias. A informação internacional circulava com maior rapidez, e o trio se nutria da literatura inovadora de poetas como Ezra Pound, e.e. cummings, Vladímir Maiakóvski, T.S. Eliot e de prosadores como James Joyce e o brasileiro Oswald de Andrade (1890-1954), último baluarte do Modernismo de 1922 ainda em atividade .
O trio logo teve de se defrontar com a poesia em moda: a Geração de 45, incentivada por Antonio Candido, professor de Literatura da USP, ensaísta e editor da revista literária Clima. Haroldo, Augusto e Décio não se conformavam com o conservadorismo de seus colegas. Eles enxergavam o poema como campo de revolução da linguagem. Nada ver com os poetas da Geração de 45, que queriam restaurar o poder da metafísica, usando a linguagem como um intermediário dócil. Assim, nutrido nas lições dos autores experimentais e confrontado com o conformismo do ambiente literário doméstico, o trio começou a mostrar seus poemas - e suas garras. A ação parecia quixotesca. Começaram a publicar poemas experimentais. Em 1948, visitaram o velho Oswald, levados pelo poeta e ensaísta tardo-modernista Mário da Silva Brito. Encontraram um homem “rotundo” e bem-humorado, mas doente, pobre e desconsiderado pelo meio literário da moda. A simpatia foi mútua. Oswald lhes deu de presente o único volume de poesia que ainda estava publicado. Os jovens o adotaram como patrono. Foram os concretos que denominaram a poesia de Oswald como “coloquial-irônica”, uma etiqueta difícil de ser desgrudada dele até hoje.
Em 1950, lançaram a revista Noigandres para divulgar poemas experimentais, deles e dos poetas que amavam. O segundo volume da revista, lançado em 1955, defendia a poesia concreta como plataforma de uma revolução formal. O movimento se consolidou na I Exposição Nacional de Arte Concreta, no Museu de Arte Moderna de São Paulo, em dezembro de 1956. Novos poetas se aproximaram. O poeta maranhense Ferreira Gullar, futuro detrator do movimento, exibiu então seus primeiros poemas visuais. A Noigandres rendeu cinco edições, a última em 1967. Foi uma revista influente, apesar das tiragens restritas, de cerca de 500 exemplares por volume.
A Noigandres e a mostra no MAM renderiam quase 60 anos de polêmicas, rompimentos e inimizades. Para defender suas ideias, o trio se viu obrigado a lançar manifestos. O primeiro saiu em dezembro 1956 na revista ad. “Poesia concreta: um manifesto” começa pela seguinte premissa geral: “A poesia concreta começa por assumir uma responsabilidade total perante a linguagem: aceitando o pressuposto do idioma histórico como núcleo indispensável de comunicação, recusa-se a absorver as palavras com meros veículos indiferentes, sem vida sem personalidade sem história - túmulos-tabu com que a convenção insiste em sepultar a ideia”. Pareciam proposições cifradas, mas hoje soam evidentes, principalmente esta: “O poema concreto ou ideograma passa a ser um campo relacional de funções”. Augusto e companheiros lançaram manifestos até 1960. Entre 1962 e 1967, lançaram cinco números da revista Invenção: Revista de Arte e Vanguarda. Depois, divulgaram esses textos. Augusto mostrou-os ao jovem Caetano Veloso – que criaria com o amigo Gilberto Gil o próprio manifesto: a canção-disco “Tropicália”, de 1968.
Augusto acha que a poesia concreta cumpriu o seu ciclo. E lançou modelos de inconformismo que ainda são aplicados, elaborados e ultrapassados. Na poesia, autores como Frederico Barbosa e Arnaldo Antunes continuam a linhagem da ruptura permanente. E há muita canção brasileira contaminada pelos procedimentos concretistas.
“Quero ser conhecido não como poeta concreto, mas como poeta”, afirma Augusto de Campos. “Embora você não possa negar a corcunda que o tempo lhe deu.”
Uma corcunda ainda capaz de lançar chamas.
Augusto pode ser descrito como um oitentão jovial, vigoroso, bem-humorado, coloquial-irônico, dotado de uma capacidade de argumentação e uma memória extraordinárias. Advogado aposentado (diríamos ‘aposentado e perigoso”, como no filme estrelado por John Malkovich), casado e avô, ele continua a morar no bairro das Perdizes, onde sempre morou. O apartamento é decorado com telas com artistas de vanguarda. Óleos de Hermelindo Fiaminghi (1920-2004) figuram lado a lado de cartazes com poemas concretos criados por Augusto, que não se diferenciam muito das telas. Sua biblioteca é tão pequena como abarrotada de livros e CDs – e, mesmo assim, muito confortável.
O poeta não se deixa enganar pela zona de conforto. Cada fala sua assume o aspecto de manifesto. Não estampa mais ensaios e seus poemas (que entregava já diagramados) em jornais, mas na internet. Acaba de publicar no site Zunai um conjunto de traduções de poemas juvenis do russo Vladímir Maiakóvski, poeta ao qual retorna de tempos em tempos. Seu maior best-seller Pagu: vida-obra, lançado em 1983 pela editora Brasiliense, biografia da escritora modernista e ativista política Patrícia Galvão (1902-1962), ganha a quarta edição pela companhia das Letras, com revisões e um projeto gráfico mais sofisticado. “Não tem muita coisa nova”, afirma ao cmais. “ Mas eu corrigi erros, informações. Aumentei bibliografia, incluí um texto, acrescentei uma entrevista muito boa que eu fiz com o Mário Sérgio Conti. A edição vai ter maior qualidade em ilustrações. Bem melhor que a parte iconográfica do livro pela editora Brasiliense que teve três edições e foi bem, diferente do que aconteceu com outros livros nossos.”
A visita aconteceu em 15 de setembro. Augusto nos recebeu – o poeta Fábio Malavoglia, apresentador do programa Rádio Metrópolis da rádio Cultura FM e este repórter – com gentileza e simpatia (ouça trecho da entrevista abaixo). “Estou com tempo agora”, diz. “Eu acabei de terminar meu livro de ensaios sobre música.” Além disso, está com dois livros a ser publicados pela editora Perspectiva, sem data prevista de lançamento: um volume de poemas escritos nos últimos dez anos cujo título não revela e Música de Invenção 2, reunião de ensaios sobre música contemporânea. “Sempre produzi pouca poesia”, diz. Ele contou que nos últimos 30 anos, tem composto poemas “verbo-voco-visuais”, como diz, no computador. Não está otimista com a poesia jovem brasileira, mergulhada, afirma, no pós-modernismo, uma máscara para praticar arte pré-moderna. Segundo ele, os poetas deveriam se atualizar aprender a trabalhar no meio digital. Ele não quer se meter na poesia dos novos. “Poetas velhos não têm que se meter com poetas novos”, diz (leia a íntegra da entrevista).
Sua preocupação hoje é com aquilo que ele chama de um escândalo: o fato de a música erudita contemporânea ter sido alijada do público brasileiro. “Eu considero uma das maiores tragédias culturais brasileiras o fato de o público não se ter praticamente acesso ao que aconteceu na música erudita moderna, na chamada música contemporânea, num gap de cem anos. O Brasil está cem anos atrasado.” E reforça: “Um século de atraso! Como se o público brasileiro não tivesse inteligência e sensibilidade para ouvir música de alto repertório.” Indigna-se porque o século XX acabou e quase ninguém conhece a música que foi feita no período. Como se não bastasse, o século XX já tem 14 anos e poucos conhecem os compositores atuais. Augusto queria que seus textos ajudassem a derrubar o “star system” da música clássica, que entronizou o repertório do Romantismo em detrimento da música criativa e atual. Sobre a música popular, diz que já fez o suficiente por ela. “Hoje a música popular é vencedora. Preciso ajudar a erudita contemporânea.” Mas avisa: “Não sou historiador de música nem musicólogo no sentido mais estrito da palavra. Faço uma crítica stop-gap, tapa-buraco. Eu vou onde acho que está faltando e as pessoas desconhecem”.
Augusto continua a seguir o breviário da revolução das artes e o rompimento com a tradição. Ele adquiriu a crença na juventude, quando se apaixonou pelas vanguardas artísticas do início do século XX impulsionadas pela revolução da tecnologia. Foi assim que participou da fundação do movimento concreto em 1955. A onda começou pela poesia, e se expandiu para as artes plásticas e a música. Foi um dos movimentos artísticos mais influentes dos anos 1960. Colocou em xeque a literatura baseada mais no conteúdo que na forma. Educou o público para a arte geométrica. Como conceito de “linha evolutiva da música popular brasileira”, ajudou a consagrar a Bossa Nova e a Tropicália. Augusto discorre sobre as várias vertentes do concretismo como da primeira vez em que foi interrogado sobre o tema. Um tema ainda polêmico passados mais de 60 anos do início do movimento.
A paixão pela controvérsia parece lhe dar força para continuar a debater, analisar e manter a racionalidade, além de possuir uma inquebrantável teimosia. “Sou um sobrevivente”, afirma. “Sobrevivente de uma geração de companheiros de viagens artísticas que já se foram, ligados à arte experimental e à arte nova.”.
Ainda que tenha reunido muitos artistas, o concretismo nasceu do trio Décio, Augusto e Haroldo. E o marco zero do movimento resultou de uma união informal. Em 1948, os três jovens, com idades entre 18 e 22 anos, estudavam na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Formar-se em Direito não era só uma questão de sobrevivência profissional. Também servia de pretexto para o trio se manter ligados e, assim, cultivar uma inclinação comum: ler e escrever poesia.
São Paulo fervilhava. A cidade se tornava uma metrópole e se equipava de instituições culturais: museus, galerias, salas de concerto, teatros, espaços dedicados ao cinema de arte, livrarias e revistas literárias. A informação internacional circulava com maior rapidez, e o trio se nutria da literatura inovadora de poetas como Ezra Pound, e.e. cummings, Vladímir Maiakóvski, T.S. Eliot e de prosadores como James Joyce e o brasileiro Oswald de Andrade (1890-1954), último baluarte do Modernismo de 1922 ainda em atividade .
O trio logo teve de se defrontar com a poesia em moda: a Geração de 45, incentivada por Antonio Candido, professor de Literatura da USP, ensaísta e editor da revista literária Clima. Haroldo, Augusto e Décio não se conformavam com o conservadorismo de seus colegas. Eles enxergavam o poema como campo de revolução da linguagem. Nada ver com os poetas da Geração de 45, que queriam restaurar o poder da metafísica, usando a linguagem como um intermediário dócil. Assim, nutrido nas lições dos autores experimentais e confrontado com o conformismo do ambiente literário doméstico, o trio começou a mostrar seus poemas - e suas garras. A ação parecia quixotesca. Começaram a publicar poemas experimentais. Em 1948, visitaram o velho Oswald, levados pelo poeta e ensaísta tardo-modernista Mário da Silva Brito. Encontraram um homem “rotundo” e bem-humorado, mas doente, pobre e desconsiderado pelo meio literário da moda. A simpatia foi mútua. Oswald lhes deu de presente o único volume de poesia que ainda estava publicado. Os jovens o adotaram como patrono. Foram os concretos que denominaram a poesia de Oswald como “coloquial-irônica”, uma etiqueta difícil de ser desgrudada dele até hoje.
Em 1950, lançaram a revista Noigandres para divulgar poemas experimentais, deles e dos poetas que amavam. O segundo volume da revista, lançado em 1955, defendia a poesia concreta como plataforma de uma revolução formal. O movimento se consolidou na I Exposição Nacional de Arte Concreta, no Museu de Arte Moderna de São Paulo, em dezembro de 1956. Novos poetas se aproximaram. O poeta maranhense Ferreira Gullar, futuro detrator do movimento, exibiu então seus primeiros poemas visuais. A Noigandres rendeu cinco edições, a última em 1967. Foi uma revista influente, apesar das tiragens restritas, de cerca de 500 exemplares por volume.
A Noigandres e a mostra no MAM renderiam quase 60 anos de polêmicas, rompimentos e inimizades. Para defender suas ideias, o trio se viu obrigado a lançar manifestos. O primeiro saiu em dezembro 1956 na revista ad. “Poesia concreta: um manifesto” começa pela seguinte premissa geral: “A poesia concreta começa por assumir uma responsabilidade total perante a linguagem: aceitando o pressuposto do idioma histórico como núcleo indispensável de comunicação, recusa-se a absorver as palavras com meros veículos indiferentes, sem vida sem personalidade sem história - túmulos-tabu com que a convenção insiste em sepultar a ideia”. Pareciam proposições cifradas, mas hoje soam evidentes, principalmente esta: “O poema concreto ou ideograma passa a ser um campo relacional de funções”. Augusto e companheiros lançaram manifestos até 1960. Entre 1962 e 1967, lançaram cinco números da revista Invenção: Revista de Arte e Vanguarda. Depois, divulgaram esses textos. Augusto mostrou-os ao jovem Caetano Veloso – que criaria com o amigo Gilberto Gil o próprio manifesto: a canção-disco “Tropicália”, de 1968.
Augusto acha que a poesia concreta cumpriu o seu ciclo. E lançou modelos de inconformismo que ainda são aplicados, elaborados e ultrapassados. Na poesia, autores como Frederico Barbosa e Arnaldo Antunes continuam a linhagem da ruptura permanente. E há muita canção brasileira contaminada pelos procedimentos concretistas.
“Quero ser conhecido não como poeta concreto, mas como poeta”, afirma Augusto de Campos. “Embora você não possa negar a corcunda que o tempo lhe deu.”
Uma corcunda ainda capaz de lançar chamas.
Fonte: http://cmais.com.br/arte-e-cultura/letra-nova/o-novo-manifesto-de-augusto-de-campos
quarta-feira, 19 de agosto de 2015
AOS 84 ANOS, AUGUSTO DE CAMPOS LANÇA LIVRO INÉDITO E FALA SOBRE TRAJETÓRIA DA POESIA CONCRETA
Em "Outro", autor e tradutor mantém tradição política do movimento com "desomenagem" ao golpe de 1964
POR GUILHERME FREITAS
18/07/2015 6:00 / ATUALIZADO 23/07/2015 12:48
O poeta Augusto de Campos - Divulgação/Fernando Laszlo
RIO - Ficou na cabeça de Augusto de Campos uma frase que ouviu de Décio Pignatari dias antes da morte do amigo, em dezembro de 2012. Em seu último encontro, eles conversaram sobre a efervescência da poesia concreta e da arte brasileira nos anos 1950 e 60. Para definir aquele momento de explosões criativas, debates, manifestos e dissidências, Décio cunhou uma expressão tão sintética quanto os mais provocantes poemas da época: “Movimentos movimentam”.
Reflexos do movimento concretista estão por todo lado em “Outro” (Editora Perspectiva), primeira reunião de inéditos de Augusto de Campos desde “Não”, publicado em 2003. A começar pela dedicatória do autor aos companheiros de Noigandres, grupo que impulsionou a poesia concreta com a revista homônima fundada em 1952: seu irmão Haroldo de Campos (1929-2003), Décio Pignatari (1927-2012), José Lino Grünewald (1931-2000) e Ronaldo Azeredo (1937-2006). O livro, que já está à venda, será lançado oficialmente em um evento na Casa das Rosas, em São Paulo, em 3 de agosto, às 19h.
Aos 84 anos, Augusto mostra em “Outro” o interesse de sempre pela dimensão “verbivocovisual” da escrita, conceito que os concretistas buscaram em James Joyce para definir a integração entre aspectos verbais, visuais e sonoros do poema. O novo livro do autor de clássicos como “Viva vaia” e “Luxo” inclui obras como “Ter remoto”, com versos em letras espelhadas descrevendo o bater de asas de uma borboleta, ou “Humano”, formado a partir de um painel com os 64 hexagramas do I Ching. Há ainda links para “clip-poemas” na internet.
Um dos renovadores da tradução no Brasil, Augusto reúne em “Outro” novas “intraduções”, poemas visuais criados a partir de fragmentos vertidos de autores estrangeiros. Entre eles, estão alguns a que se dedicou por toda a carreira, como Valéry e Mallarmé (uma frase deste último inspirou o poema ao lado). Da americana Marianne Moore, traduz os versos: “Poesia. Eu também a abomino. Lendo-a todavia com total desprezo a gente descobre afinal um lugar para o genuíno”. Augusto apresenta ainda recriações de trechos de autores de língua portuguesa, como Fernando Pessoa e Raul Pompeia, que define como “outraduções”.
Em entrevista por e-mail, Augusto fala sobre o novo livro e relembra a trajetória da poesia concreta. A atuação política do movimento é evocada em "Outro" com uma nova versão do poema “Brazilian ‘football’”, publicado pela primeira vez em 1964 na imprensa britânica, que denunciava o regime militar com um jogo entre as palavras “goal” e “gaol” (cadeia). Augusto diz ter revisitado o poema agora como uma “desomenagem” ao golpe de 1964 e aos “golpistas de todos os matizes do presente, chupins desmemoriados do poder”.
— Não sei se o que faço é ainda poesia concreta. Fiquei talvez mais “pop”. Mas sempre “verbivocovisual” — diz Augusto, para quem “quase toda a intelligentsia brasileira” resistiu e ainda resiste ao projeto concretista. — Certa vez, escrevi que a poesia-bumerangue-concreta, depois de exportada, iria recair em cabeças duras. Está aí. Vão ter de engoli-la. “Movimentos movimentam”.
“Outro” é dedicado a seus companheiros de Noigandres: Haroldo de Campos, Décio Pignatari, José Lino Grünewald e Ronaldo Azeredo. Por que a menção a eles? Como avalia a contribuição do grupo para a literatura brasileira?
Dediquei “Profilogramas“, livro comemorativo dos meus 80 anos, aos artistas visuais com quem convivi. Deles, apenas Judith Lauand e Alexandre Wollner estão vivos. É natural que nesta quadra da vida queira lembrar os poetas do meu “inner circle“ que já se foram. Décio, abalado pelo mal de Alzheimer nos últimos dias, dizia, relembrando os tempos vibrantes das discussões literárias e artísticas dos anos 50 e 60: “Movimentos movimentam.” Prefiro não fazer a avaliação da contribuição do nosso grupo para a literatura brasileira, tendo sido um participante dele. Direi apenas que quase toda a intelligentsia brasileira apostou contra ele. Em parte, ainda é contra ele. Certa vez, diante do muro de negação com o qual nos defrontamos durante meio século ao lado de minoritários aplausos, eu escrevi que a poesia-bumerangue-concreta, depois de exportada, iria recair em cabeças duras. Está aí. A outros cabe avaliá-la. Mas vão ter de engoli-la. “Movimentos movimentam.”
Em “Outro”, vemos a continuidade de seu interesse pela dimensão “verbivocovisual“ da escrita. No poema “Ter remoto”, por exemplo, o sentido dos versos se desdobra na forma, com o uso de letras espelhadas. Qual é o lugar desses novos poemas na trajetória de sua investigação sobre a poesia concreta?
Não sei se o que faço é ainda poesia concreta. Certamente não se enquadra na fase “ortodoxa” dos poemas minimalistas bauhausianos, que foi até o início dos anos 60, pautada pelo projeto (não decreto) do “Plano-piloto para a Poesia Concreta”. O golpe militar de 1964 desarrumou nossa utopia construtivista. Acrescentamos ao Plano um p.s. extraído de Maiakóvski, “sem forma revolucionária não há arte revolucionária”— e tentamos fazer o mais difícil: uma poesia engajada sem concessões às “palavras da tribo”. Parti com Waldemar Cordeiro para a arte concreta semântica, os “popcretos” que expus em dezembro daquele ano na galeria Atrium, no centro de São Paulo. Os tipos “futura” deram lugar à tipografia errática dos jornais e revistas para uma “explosição de expoemas colhidos e escolhidos no aleatório dos ready made”, no “caos antropofágico brasileiro redestruído pela manchetomania de um anarquiteto”. Terminada a mostra, quando fomos retirar os trabalhos, todos estavam danificados com insultos e palavrões. Num dos meus poemas escreveram a palavra “lixo”. Foi o toque para o poema LUXO, que publiquei no ano seguinte com os fototipos “kitsch” que vi num anúncio de apartamentos “de alto luxo”, e que compus de modo a formar, como um palavrão-poema gráfico, o reverso LIXO. Depois dos “popcretos” passei a organizar meus poemas com “letraset“ e, por último, com fontes digitais que exploram a iconicidade. Nessa área de pesquisa se situa o poema “Ter remoto”, inspirado no “efeito borboleta” de Lorenz. Fiquei talvez mais “pop”. Mas sempre “verbivocovisual”.
Nova versão do poema “Brazilian ‘football’”, de Augusto de Campos, publicado pela primeira vez em 1964 - Divulgação/Augusto de Campos
Em 2014, ano em que o Brasil recebia a Copa do Mundo e relembrava cinco décadas do golpe militar, você fez uma nova versão do poema “Brazilian ‘football’”, de 1964, que aproximava futebol e ditadura. Por que decidiu revisitar esse poema de 1964 em 2014? Qual é a dimensão política da poesia concreta?
Toda poesia já tem em si mesma uma dimensão política. Em essência, o poeta está em estado de greve. Mas sofre também os impactos emocionais do seu contexto, e a poesia concreta não pôde ficar indiferente a eles. “Brazilian ‘football’” foi publicado em setembro de 1964 no “Times Literary Supplement” de Londres em páginas que divulgavam a poesia concreta brasileira. Com ele eu denunciava, em tempo relativamente real, passando de GOAL a GAOL (“cadeia”), as prisões da ditadura: “1958 — Goal. Goal. Goal. 1962 — Goal. Goal. Goal. 1964 — Gaol. Gaol. Gaol“. A data 2014 se refere ao novo layout com o qual relembro o poema. Ao revisitá-lo, pensei em uma “desomenagem” ao golpe de 1964. Hoje, dedico-o aos golpistas de todos os matizes do presente, chupins desmemoriados do poder.
No prefácio, você lembra que, para produzir os poemas coloridos de “Poetamenos” (1953), usava carbonos de várias cores. Que possibilidades o computador e a internet abriram para a poesia concreta?
Desde o início da década de 1990, quando adquiri o meu primeiro computador doméstico, passei a produzir diretamente nele. O computador abriu todas as possibilidades que eu vislumbrava no prefácio a esses poemas: “Mas luminosos ou film-letras, quem os tivera!”. Hoje, com um simples processador de textos, realizo em minutos o que eu levava horas para montar em minha máquina de escrever. Ainda “jovem”, aos 60 anos, estudei softwares de desenho e de animação e pude, sem sair de casa, utilizar todos os recursos que queria. Cores, sons, ação. A princípio converti poemas escritos em versões animadas. Depois passei a pensá-los na linguagem digital. Como afirmo no prefácio atual, “Outronão”, Walter Benjamin foi profético quando previu, sob invocação do “Lance de dados“ de Mallarmé, que no futuro o poeta ao abrir um livro veria desabar sobre ele uma nuvem de letras-gafanhotos móveis e coloridas e teria que aprender a lidar com grafias e diagramas. Não quer dizer que toda poesia deva seguir esse caminho. Mas para mim é um caminho estimulante. Alguns textos de “Outro” são formas estáticas de poemas que parecem pedir movimento. Outros têm versões animadas que me permitem explorar as virtualidades cinéticas e icônicas da palavra. A internet é o veículo ideal para eles.
“Outro” reúne traduções de autores que são referência corrente em sua obra, como Mallarmé e Apollinaire. Qual tem sido a importância da tradução para sua poesia? E como avalia o estado atual da tradução no Brasil?
Pelo menos dois terços do meu trabalho de poeta consistem em traduções. Sempre postulei a tradução criativa em lugar da literal. Esta pode ser muito útil mas não pode recriar o original. Acho que já se tem maior consciência disso. O maior problema das traduções de poesia em verso entre nós é que hoje poucos dominam a tecnologia do verso. Voam pés quebrados. Mas não basta o domínio do verso. Tradução é performance. Como a interpretação musical. Bach “made new” por Glenn Gould. Beethoven “made new” por Boulez. Gershwin “made new” por Janis Joplin. Todo mundo gosta de jogar futebol. Mas uns jogam melhor do que os outros.
Na apresentação, você cita Marianne Moore para dizer que “não gosta de poesia”, embora “só leia poesia” e “o que tenha a ver com poesia”. Uma pergunta talvez muito abrangente: o que você entende hoje por poesia?
Só não gostam de poesia os poetas que sabem fazê-la, como Marianne Moore. O poema a que me refiro e do qual dou uma “intradução” tem duas versões, das quais ela preferiu a mais breve, remetendo a versão estendida para as notas. Na minha “intradução”: “Poesia. Eu também a abomino. Lendo-a todavia com total desprezo a gente descobre afinal um lugar para o genuíno.” Minha relação com a poesia é muito intensa e contraditória, como imagino que seja a de Marianne, que pratica uma antipoesia, extraindo poesia dos contextos menos poetizáveis. Não compartilho do júbilo recreativo com que tantos colegas meus gostam de exibir seus poemas. Creio com Bernardo Soares que “não há obra de artista que não pudesse ter sido mais perfeita. Lido verso por verso, o maior poema poucos versos tem que não pudessem ser melhores, poucos episódios que não pudessem ser mais perfeitos” etc. Prefiro a poesia dos que vejo menos sujeitos à imperfeição. Leio-os, tento aprender com eles, trituro-os, traduzo-os, “intraduzo-os” e tento fazer outra coisa. No meu ouvido o eco do oco de Bernardo Soares, semi-heterônimo e também, como descobri, semianagrama de Fernando Pessoa. A ele dedico uma “outradução” ou poema não original, “remix” visual de si mesmo. Pessoares: “aérea a hora era uma ara onde orar”. Para mim poesia é o que não é poesia.
Assinar:
Postagens (Atom)






